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Nimbus...





O Arpoador
Xavier Marques


SINOPSE: Nem só de lixo literário é composta a Academia Brasileira de Letras. Houve um tempo, perdido na memória do país, em que um e outro Literato, por não se sabe qual acaso, incluía-se na Academia. Um desses Literatos é Xavier Marques (1861-1942), escritor baiano, mestre da narrativa praieira, único em seu estilo, autor que fez do ambiente de seu litoral o elemento de uma arte universalmente merecedora de apreço. Pertence ao pequeno número daqueles que podemos sinceramente chamar Imortais, não por pertencer à Academia, mas por ser um Escritor. A Nephelibata, cumprindo seu objetivo — do raro ao raro: do raro autor ao raro leitor — inicia aqui o justo trabalho de escavar na História o nosso ouro literário. À massa, os Coelhos, Marinhos e Heitores Conycos; aos raros, um arpoador. E aos arqueólogos — e anárquicos — a nossa homenagem... Se não é a devida, é a do nosso alcance em horas de hoje.   [Leia mais...] [Adquirir...]



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O ARPOADOR
(fragmento)


      Manuel Ventura, armador de baleeiras, vinha pelo alvor das cinco da manhã montado num cavalo passeiro, experimentado naqueles areais cegos da costa, por onde às vezes desabrolham, com suas flores em tirso, as velas-da-pureza, semelhantes a “bouquets” de cera.
      Nos cimos do palmar e sobre a palha das choças trancadas bufavam ainda os ventos baixos, últimos arquejos do temporal que até a véspera uivara em toda a linha do Mar Grande e seus arrecifes.
      Surgiam de espaço em espaço, à meia luz do crepúsculo, caieiras de fogo morto, com os fornos e galpões empoados de cal e carvão. Cestos e pás, carrinhos, tinas, achas de lenha, cascalho em tulhas, fragmentos de pedra calcárea, tudo abandonado, imobilizado, fixava um momento de desordem, participando desse torpor em que mergulham as gentes de beira-mar, nos dias de borrasca.
      Sozinho, pelo costeiro deserto, vencendo longos arcos de enseadas, viajava, hora e meia havia, o ativo armador, à procura de um praiano. Envolto num pesado capote reiúno com capuz pela cabeça e as barbas longas desfiadas pelo vento, seguia falando para o seu cavalo:
      — Procura-se um homem, como quem procura ouro... e p’ra quê? p’ra lhe dar que ganhar... Eu madrugando no caminho e ele me fugindo da vista... As cousas são assim.
      Passou por uma casinha entaipada, retraída para além, de um renque de coqueiros. Nem viv’alma de quem se informar... O remédio era continuar ao passo do castanho, aproveitando as quatro braças enxutas entre o areal e a beira d’àgua. Esporeou o animal, e foi por diante com os olhos no céu sem nuvens, porque todas estas se haviam fundido e distendido num imenso nevoeiro cor de zinco.
      Ambos, ele e o seu homem, nasceram ali na costa, mas, ia já por dez anos, andavam desencontrados. Diziam que o praiano cismara com baleias e baleeiras e que ninguém mais teria força bastante para o remeter à atividade da pesca. — Ora essa... Mas então a quem havia de entregar a lancha? Já era preciso empenho para obter arpoador! Melhor para as baleias, peor para os armadores.
      — Tentemos sempre. Na Conceição não está... Pode ser que naquela ponta por onde passei ontem com escuro... mas eu lá chego em meia hora, e é preciso esperar que esses dorminhocos deixem o quente. Devagar; vamos indo.
      Começava a aborrecer-se, com uma crispação de frio nos queixos. A ventania gelava a rachar os ossos. O armador ainda conteve o bruto, que ia alargando, como se urgido pela necessidade de exercício. Mas de repente avistou longe alguma cousa que parecia arrojada pelo mar. Ativou a marcha e viu que essa cousa era um gibão. Aproximou-se e deu com um homem de cócoras, embrulhado no gibão, a espreitar as ondas.
      — Louvado seja Cristo que encontro uma alma... Bons dias.
      E reconhecendo, pelo nariz de bico de tucano, o rubicundo Miguelinho, fez espanto.
      — O senhor!... Tão cedo nesta beirada! Que está pescando assim?
      — Nada, respondeu o outro, com desconfiança. E o senhor a esta hora, debaixo desta cascalha de vento... Isto é força de negócio!
      — Eu ando em busca de um homem...
      — Em busca de um homem p’ra que fim?
      — Não é p’ra levá-lo preso... Não sou mais inspetor...
      — Ah! Quem é ele, se não há segredo?
      — Conheceu Militão? É daqui mesmo... Sabe me dizer onde mora?
      — O velhote, sempre acocorado e com os braços travados, refletiu e mastigou:
      — Militão... Militão... Não é um cabra arregalado, de seus cincoenta anos, que veio p’ra acolá trabalhar na caieira grande, há cousa de ano?
      — Há de ser.
      — Casado, tem um bando de filhas... morou na Pedra Furada...
      — É este.
      — Arpoador de baleia...
      — Este mesmo.
      — Siga. Lá na ponta da Penha, antes do atalho, tem um correr de casinhas. É por ali assim... pergunte.
      — Se achar a quem... ‘Stá bom, obrigado. Adeus.
      E dando de rédeas ao cavalo, partiu Manuel Ventura.
      Tinha feito mais um quarto de hora quando entreviu novo encapotado, em igual posição, a espiar os recifes. Avançou, monologando: “Triste ofício o destes velhotes. É cair temporal madrugam neste costeiro à espera do que não ganharam... Parece até que só vivem pensando na desgraça que vai por esses pegos...”
      Passou pelo segundo espia, apenas dando os bons dias. Esse era o célebre João d’Aratuba, o gajo que uma vez, depois de uma tempestade que durou seis dias, apanhara um barril de vinho entrando pela barra do Gil. Encanteirou-o no quarto e não trabalhou durante mês e meio. Quando a maré favorecia, tomava o bicheiro, ia aos recifes e fisgava um polvo. Cozinhava-se o polvo. Toca a beber com a mulher e os filhos.
      A ponta da Penha destacava-se como o beque de uma grande nau proejando aos escolhos. O aspecto do horizonte era o mesmo, o céu e o mar zincados.
      Mais um quarto de hora debaixo da neblina fria.
      Começou a mover-se da fileira de casas uma baeta escalarte. — Seria outro?
      (...)

Xavier Marques. O Arpoador.
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 11-15.

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