Poesia...


Tzara, Stanco, Naum, Bacovia e Blaga
SINOPSE: Aqui estão reunidos cinco fragmentos da poesia romena. Trata-se de cinco poetas pouco conhecidos do leitor brasileiro: George Bacovia e Lucian Blaga, dois expoentes da poesia Simbolista romena; Tristan Tzara, mentor do movimento Dadaísta; Zaharia Stanco, reconhecido poeta e prosador; e Gellu Naum, uma das figuras mais destacadas da poesia Surrealista romena. Nestes dias de grandes turbulências mentais, nada mais justo, creio, do que caminhar contra a ordem e o progresso fazendo proliferar esta coisa inútil que é a poesia, afinal: é tudo tão escuro que somente as palavras são luz. [Leia mais...] [Esgotado...]
poeta romeno, em Poesia Rumana Contemporanea, Barral Editores, Espanha, 1972.
Do tradutor:
Camilo Prado é tradutor e editor das Edições Nephelibata.
Outras traduções pela Nephelibata:
Tendências Atuais da Filosofia, de Jean-Yves Béziau
O Amigo dos Espelhos, de Georges Rodenbach
(poemas integrais)
PAISAGEM DE INVERNO
Neva implacavelmente no campo, nos arredores do matadouro.
O sangue quente se escorre pelo canal;
E farta está a neve de sangue animal —
Está nevando sempre sobre uma ladeira triste...
Queimado está o branco pelo coagulado sangue
E os corvos passeiam pelo sangue... e bebem;
A hora é tardia... nos horizontes fogem os corvos —
No campo, junto ao matadouro, anoitece.
No horizonte escurecido está nevando...
E agora, quando as janelas tristes se acendem,
Chegam ao matadouro os lobos de brilhantes olhos.
— Sou eu, meu amor, na fria porta.
George Bacovia (1881-1957)
AUTO-RETRATO
Lucian Blaga está mudo como um cisne.
Em seu país
a neve do corpo ocupa o lugar da palavra.
Sua alma
secular,
a de sempre,
em seus últimos limites,
está buscando a água que absorve o arco-íris.
Está buscando a água
em que o arco-íris
absorve sua formosura
e sua inexistência.
Lucian Blaga (1895-1961)
LAMENTO
Muro em ruínas
Eu me perguntei
Hoje por quê
Não se enforcou
Lia, a ruiva Lia,
De noite com uma corda...
Poderia ter-se balançado
Como pêra madura
E ladrariam
Os cães na rua
Chegaria muita gente
Para vê-la
Gritariam
“Cuidado para que não caia”
Eu trancaria
O cadeado da porta
Levaria uma escada
Para baixá-la
Como pêra madura
Como moça morta
E a conduziria até uma bela cama.
Tristan Tzara (1896-1963)
SUSTENTAVA NAS MÃOS A TERRA
Sustentava nas mãos a terra, a terra.
Tu me dizias: a erva, brotou a erva.
Sustentava nas mãos as nuvens, todas as nuvens.
Tu me dizias: caiu a tarde, anoitece.
Sustentava nas mãos o céu, todo o céu.
Tu me dizias: anoiteceu, já é tarde.
Trazia-te o sol, o sol.
Tu me dizias: é tarde, muito tarde...
Zaharia Stanco (1902-1974)
O SEGREDO DO VAZIO E DA PLENITUDE
Aquecia sua língua ao sol
ficava com o dedo pequeno na terra até que dava flores
Quantas vezes sentia frio apertava as mãos
quantas vezes via o mar calçava as meias
quantas vezes penteava-se fechava as portas
quantas vezes fugia olhava no espelho
Quando se olhava na água nasciam círculos
quando tirava os suspensórios lhe caíam as pernas
Gellu Naum (1915-)
Desterro: Nephelibata, 2003, pp. 19, 45, 64, 73 e 90.
