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O Amigo dos Espelhos
Georges Rodenbach


SINOPSE: Georges Rodenbach (1855-1898), nasceu em Tournai, Bélgica, e faleceu em Paris, onde passou seus últimos anos e onde conviveu com os grandes do Simbolismo francês, como Stéphane Mallarmé, Villiers de l’Isle-Adam e Goncourt. Na Bélgica, em sua juventude, fundou a importante revista literária La jeune Belgique com seus amigos Maurice Maeterlinck e Émile Verhaeren. Poeta e prosador, Rodenbach é autor de treze obras poéticas, algumas novelas e romances e dois livros de contos. Bruges-la-morte, é sua obra mais conhecida e traduzida em diversas línguas, inclusive no Brasil. Le rouet des brumes (O caminho das brumas), da qual foram selecionados os contos que aqui constam, é uma obra póstuma, composta de breves narrativas onde loucura, morte e melancolia se combinam com graciosa harmonia de cores. Não estranhe o leitor se nelas encontrar um pouco de “psicanálise”, é que talvez Freud também tenha bebido aqui...   [Leia mais...] [Adquirir...]



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O AMIGO DOS ESPELHOS
(fragmento)


      A loucura, às vezes, é somente o paroxismo de uma sensação que tem, primeiramente, uma aparência puramente artística e sutil. Eu tive um amigo, internado numa casa de saúde, onde morreu de uma morte dramática que relatarei adiante, cujo mal começou de maneira anódina e por traços que se assemelhavam aos de um poeta.
      Na origem, esteve o gosto pelos espelhos; nada de mais.
      Ele os amava. Inclinava-se sobre seu mistério fluido, contemplava-os como janelas abertas ao Infinito. Mas os receava também. Uma tarde em que retornou de viagem, depois de suas longas ausências costumeiras, eu o encontrei em casa, ansioso. “Eu parto novamente esta noite mesmo”, disse-me.
      — Mas você não pretendia, desta vez, passar o inverno aqui?
      — Sim; mas eu parto em seguida. Esse apartamento me está muito hostil... Os lugares nos deixam mais do que nós os deixamos. Eu me sinto um estranho nessas peças, entre meus próprios móveis, que não me reconhecem mais. Eu não poderei ficar... Há um silêncio que eu perturbo... Tudo me é hostil. E há pouco, ao passar diante do espelho, fui tomado de medo... Era como uma água que fosse se abrir, e voltar a se fechar sobre mim!
      Eu não me espantei, sabendo do humor sensitivo de meu amigo, conhecendo, de resto, essas impressões de retorno, nas peças fechadas, entre a poeira, o odor contido, o desassossego, a melancolia das coisas que são um pouco mortas durante a ausência... Tristeza de fins de festa! Tardes de retorno, depois o esquecimento da viagem. Parece que todos os nossos velhos desgostos ficados em casa nos acolhem...
      Eu compreendi então a sensação experimentada no regresso por meu amigo, e que todos suportam mais ou menos, em ter de retomar sua vida por demais cotidiana... Pois que sendo livre e rico, era natural que o capricho da hora decidisse...
      Contudo ele não partiu. Alguns dias depois, eu o reencontrei. Estava indisposto, disse-me ele.
      — No entanto você está com excelente aspecto...
      — Você diz isso para me confortar. Mas eu me vejo nos espelhos, nas vitrinas... olha! Você não imagina como estou irritado, como estou sofrendo. Eu saio. Creio-me bem saudável, recuperado. Os espelhos me vigiam. Existem agora por toda parte, na casa dos modistas, nos barbeiros, mesmo nas mercearias e nos vendedores de vinho. Ah! os malditos espelhos! Eles vivem de reflexos. Estão à espreita dos transeuntes. Vai-se, não se toma cuidado. E eis que de repente a gente se vê neles, a face ruim, magra, os lábios e os olhos como duas flores adoecidas. São eles, talvez, que nos tomam nossas cores vivas. É de os colorir que nós somos pálidos... A saúde que temos se perde neles como uma bela maquilagem na água...
      Escutei meu amigo falar como se se divertisse uma vez mais com esses jogos sutis de conversação, em que ele era excelente. Era um conversador único... abundante, embora precioso. Ele via analogias misteriosas, corredores maravilhosos entre as idéias e as coisas... Sua linguagem desenrolava no ar frases ornamentais que iam freqüentemente acabar no desconhecido. Mas, desta vez, ele não pareceu ceder às fantasias, a um diletantismo de descoberta visionária. Pareceu realmente inquieto, angustiado pelos sinais da doença que os espelhos das vitrinas lhe testemunhavam.
      Eu lhe disse: “Todo mundo tem mal aspecto nesses vidros. Neles a gente se vê deformado, macilento ou pálido, com os lábios exangues ou violetas... Percebe-se cambaio ou obeso, muito alto ou muito largo, como nos espelhos côncavos e convexos das feiras. Aí se está sempre feio. Mas eles mentem. E não somos neles mais feios do que sua feiúra, e pálidos como sua doença...”
      — Talvez, respondeu meu amigo, tomando um ar sonhador, um pouco reconfortado; são espelhos de má qualidade, espelhos pobres; e é por isso, então, que eles não podem nos mostrar senão com uma saúde empobrecida...
      Sem querer, minha conversa teve uma influência decisiva sobre as idéias e a existência de meu amigo. Convencido de que os espelhos das vitrinas não eram verdadeiros, ele quis ter em casa espelhos sinceros, quer dizer espelhos perfeitos, de um aço irreprovável, capaz de lhe exprimir o rosto integralmente, até a menor nuança. E como o testemunho de um só não seria suficiente, não provava nada, ele quis muitos, outros mais, onde sem cessar se olhou, se comparou, se confrontou. Um gosto crescente por ricos espelhos lhe veio, por ódio desses espelhos pobres das vitrinas, espelhos hipócritas, espelhos doentes que o fizeram crer que estivesse doente. Começou por causa disso, sem dúvida, uma coleção...
      (...)

Georges Rodenbach. O Amigo dos Espelhos. Trad. de Camilo Prado.
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 17-21.

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