Prosa...


Floriano Martins
SINOPSE: Uma história composta por três sobras, um menino “ansioso”, um poeta louco e uma ama carinhosa, três personagens à margem de Deus, esquecidos em seus mundos compartilhados no seio de uma família abatida pelo tempo. Sobras de Deus é a primeira novela de Floriano Martins. [Leia mais...] [Adquirir...]
É autor, entre outros títulos, do livro “O começo da busca” (Escrituras, 2001), dedicado
ao Surrealismo na América Latina, e com Claudio Willer dirige a Revista Agulha.
(excerto)
Duas ou três ligações. Logo já estávamos no hospital. O largo e minúsculo corpo de Eudoro Antunes lentamente escurecendo sobre o leito. Em meio à agitação de olhares, o derrame agônico dos murmúrios, lágrimas mal dissimuladas, pude entrever seus últimos instantes. Há muito — na verdade — já estava distante de tudo aquilo. Acreditavam todos que seu diálogo único era com a bebida, poucos sabendo tratar-se de outra matéria a solidão. Jamais conhecera pessoa igualmente disposta a fundir-se na experiência alheia. Estranhado, foi destilando mordacidade até encontrar-se com a rejeição. Tio Eudoro sempre aparecia na casa da avó, com a enorme pasta, mostruário de drogas caseiras. Levava consigo o gosto de álcool no hálito.
—Pequeno, sonhei tanto com alguma mínima forma de transcendência. Mas vou acabar meus dias matando os outros. Vender remédios foi tudo o que pude fazer na vida.
Na velha cristaleira na sala de refeições havia uma garrafa de licor, cujo conteúdo tio Eudoro cuidava de fazer desaparecer, a cada visita, até que novamente, sem que ele percebesse, a avó o completasse.
—Sabe o que diabos vejo na bebida? Não, não sabe. Ninguém sabe.
Outras vezes desatava a falar de amantes que jamais conheceu. “As danadas são como vetustas sombras do desejo”. Da mulher dizia ser a antífrase da razão. Para ter-se com uma não havia maneira mais dada senão desfazer-se da outra.
—Por vezes penso que fui regurgitado por ambas senhoras, vestais iníquas e estouvadas, safadas bíblicas.
Todas aquelas pequenas cenas projetadas pela memória foram dissipadas de uma só vez pela súbita dor no braço, uma das tias-avós me retirando do quarto do hospital.
—Isto não é lugar para uma criança.
Em casa, Mãe Dolores era a única a me reconfortar. Com ela, criança podia tudo. E não hesitou em me dizer que tio Eudoro havia morrido. Sentei-me a seu lado, no chão, a cabeça baixa, a mão cuidando de algumas lágrimas em meu rosto. Toda a memória voltada para aquele tio, recordando-lhe as palavras:
—Toma, filho.
Então fazia com que a moeda desaparecesse de suas mãos. Nada mais havia ali para ser tocado.
—Tudo o que vemos, Pequeno, é o intocável. Na virtude o que vemos não é senão a impostura, a hipocrisia. A ingenuidade nos chega sempre na forma de ignorância. Um dia compreenderás.
Tio Eudoro trazia alegria àquela casa. No entanto, todos lhe recebiam com ar suspeito. Por vezes ouvi da boca das irmãs:
—Dá pena ver um homem tão bom sendo desfeito pela bebida.
—Tio, me deixa tentar pegar a moeda outra vez.
Impossível. Era um sacerdote de meus enlevos. E encantava-me ainda com inúmeras histórias:
—Um dia o deus do tempo engoliu uma pedra mágica acreditando que lhe fosse o filho. Ao descobrir o engano a cuspiu o mais longe. A pedra converteu-se em um objeto sagrado, cultuado por quantos vissem nela a imagem de uma deusa presciente.
E logo completava:
—Que coisa absurda, cuspir o próprio filho como se fosse um pedregulho…
Desterro: Nephelibata, 2008, pp. 13,14 e 15.
