Nimbus...


Mário de Sá-Carneiro
SINOPSE: Eis aqui duas novelas exemplares do luso-egocêntrico, em que verdade e imaginação se mesclam e se anulam, como em dias de névoa a montanha e a floresta, o caminho e o rio... Filho legítimo do fim-de-século europeu, Sá-Carneiro, como tantos outros, traz a lógica científica e filosófica para a literatura, não para teorizar, mas para expandir inda mais a imaginação, oscilante entre ficção científica e nefelibatismo. Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa em 1890; estudou e viveu em Paris por vários anos; colaborou na revista literária portuguesa Orfeu. Entre seus escritos destaca-se a novela A confissão de Lúcio, obra-prima do Simbolismo português. Suicidou-se tomando "cinco frascos de arseniato de estricnina", aos 26 anos, em abril de 1916. [Leia mais...] [Adquirir...]
(fragmento)
Mesmo entre o público normal causou grande sensação a morte do Prof. Domingos Antena. Não tanto — é claro — pela irremediável perda que nele sofreu a Ciência contemporânea, como pelo mistério policial em que a sua morte andou envolvida.
Esse automóvel-fantasma que, de súbito, surgira e logo, resvalando em vertigem, se evolara por mágica, a ponto de ser impossível achar dele um indício sequer, embora todas as diligências — e mesmo a prisão dalguns chauffeurs que puderam entretanto fornecer alibis irrefutáveis — volveu-se lògicamente matéria-prima óptima, de mais a mais roçando o folhetim, para os diários, então, por coincidência, privados de assunto emocional.
Depois, a figura do Prof. Antena era entre nós popular. O seu rosto glabro, pálido e esguio, indefinidamente muito estranho; os olhos sempre ocultos por óculos azuis, quadrados, e o sobretudo negro, eterno de verão e de inverno, na incoerência do feltro enorme de artista; e os cabelos longos e a lavallière de seda, num laço exagerado — tudo isto grifara bem o seu perfil na retina paspalheira da multidão inferior das esquinas. Entanto jamais um dito grosseiro, dessa lusa grosseria, provinciana e suada, regionalista, que até nesta Lisboa — central, em vislumbres — campeia à rédea solta (e mesmo refina democràticamente), o atingiu nas ruas ou nas praças, pelas quais ele era silhueta quotidiana. Pois ao invés dos sábios convencionais e artistas castrados que fogem às multidões, à Europa, ao progresso, num receio gàgá de ruído e agitação — o Prof. Antena era, pelo contrário, onde mais se aprazia, sobretudo nas horas maravilhosas de criação. Com efeito um grande sábio cria — imagina tanto ou mais do que o Artista. A Ciência é talvez a maior das artes — erguendo-se a mais sobrenatural, a mais irreal, a mais longe em Além. O artista adivinha. Fazer arte é Prever. Eis pelo que Newton e Shakespeare, se se não excedem, se igualam.
De resto nada há que torne alguém mais lisonjeiro ao povo do que a lenda — e em volta do Prof. Antena nimbava-se um véu áureo de Mistério. A tradição sabia que esse homem excêntrico se debruçara mais duma vez sobre qualquer coisa enorme, alucinante — que o seu laboratório seria melhor, entre aparelhos bem certos, a gruta dum feiticeiro, do que o atelier dum mero cientista. Os periódicos heroificavam-no popularmente nas suas manchettes, dia a dia — e, por último, as curas extraordinárias, laivadas de milagre, que ele fizera pelos hospitais graças à sua perturbadora aplicação dos raios ultra-violeta — tinham acabado de o sagrar aos inferiores, em humanitarismo.
Eis pelo que a sua morte desastrosa causou funda emoção. O caso foi assunto durante semanas por toda a cidade, por todo o país — discutido, perscrutado.
Como é que eu, o seu discípulo mais querido — hoje, meu Deus, o seu herdeiro — e a única testemunha da tragédia, não vira coisa alguma, não conservara sequer na memória um detalhe que pudesse identificar o automóvel que o esmagara?... Demais, no local do desastre, a estrada fazia uma curva e o macadame era avariado. Logo o veículo não pudera, normalmente, resvalar em bólide... Eu protestava, é certo, com o horror do momento que me cegara. E essa razão teve que ser aceite. Mas em verdade, apesar do meu nome impoluto, dos laços estreitos, filiais, que me ligavam ao Mestre, não sei se suspeições teriam caído sobre mim, caso o atropelamento não fosse evidente. Evidente; entanto muito singular; pois além do crâneo esmigalhado, das pernas decepadas, ferimentos reais, ainda que duma violência fenomenal — outra ferida houve quase inexplicável: uma ferida perfurante, cónica, a meio do ventre, que dir-se-ia, feita por uma broca triangular, girando vertiginosamente a rasgar-lhe as entranhas com a sua ponta de diamante.
Aventou-se ainda, por outro lado, que o automóvel conduziria bandidos trágicos à Bonnot, fugitivos de qualquer sangreira. Mas crime algum se cometera essa manhã. Logo a sherlockholmesca hipótese foi posta de parte. E como o inexplicável se não explica, mas tem que ser admitido — a estranha morte do Prof. Antena ficou aceite como um atropelamento banal. E breve ninguém falava já do facto — tudo olvidado na queda dum mistério...
O meu nome escreveu-se frequentes vezes nos periódicos, durante o inquérito. Muitos repórteres me procuraram, e os correspondentes dos jornais estrangeiros. Mas eu só lhes respondia com os meus lamentos, as minhas lágrimas, e a descrição sucinta, sempre igual, da catástrofe: um automóvel enorme, fechado, de súbito surgindo na curva, em bólide, e sem tocar a sereia — um ruído de ferragens, nuvens de pó... e na estrada, esmigalhado, o cadáver do Mestre...
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Pois bem, hoje, quase um ano decorrido sobre o desastre, eu venho falar enfim....
(...)
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 07-10.
