nephelibata
Plaquetas...



A Causa Secreta
Machado de Assis

*Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, em 1839. A causa secreta é um dos mais
conhecidos contos do tão louvado mestre da prosa brasileira. O texto é reproduzido conforme
o original, e lendo-o tal como foi escrito, possibilita ao leitor um sabor distinto, raro de se encontrar.
[Adquirir...]


_____________________________________

A CAUSA SECRETA
(excerto)

      Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o tecto; Maria Luiza, perto da janella, concluia um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum d’elles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excellente, — de Catumby, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saude, que adiante se explicará. Como os tres personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a historia sem rebuço.
      Tinham falado tambem de outra cousa, além d’aquellas tres, cousa tão feia e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da casa de saude. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora mesmo, os dedos de Maria Luiza parecem ainda tremulos, ao passo que ha no rosto de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o que se passou foi de tal natureza, que para fazel-o entender, é preciso remontar a origem da situação.
      Garcia tinha-se formado em medicina, no anno anterior, 1861. No de 1860, estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, á porta da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas, ainda assim, tel-a-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distracções era ir ao theatro de S. Januario, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou duas vezes por mez, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais intrépidos ousavam estender os passos até aquelle recanto da cidade. Uma noite, estando nas cadeiras, appareceu alli Fortunato, e sentou-se ao pé d’elle.
      [...]


nephelibata