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Poesia...





Enquanto os Tempos Forem Nublados Estarás Só
Conde de Lêmur


SINOPSE: Alguns nascem póstumos, escreveu n'algum lugar Nietzsche. E este dístico cabe bem ao meu incógnito amigo, Conde de Lêmur. O lugar, se é que há um para sua verve, é o passado. Seus irmãos de estro estão lá pelos fins do século XIX, rebatendo a língua culta contra os muros do populacho, forjando imagens interiores para os raros – de espírito e de intelecto –, mestres sinistros da poesia etérea, filhos do longínquo país do Símbolo, habitantes de ermas Torres... Que bom que nascem póstumos, pois só assim vimos como a poesia planta raízes na alma dos Eleitos, que são sempre os emparedados, em qualquer época e lugar. E assim sendo, permanecem herdeiros fiéis das liras antigas, da poesia d'outrora, e estrangeiros, no tempo e no espaço – como o é este insigne Conde, e seu canto, provindo da distante e extraordinária Lemúria...   [Leia mais...] [Adquirir...]


*Conde de Lêmur nasceu na antiga Lemúria, região montês do extremo sul do país,
em época e estação transitórias. Os escritos deste livro foram compostos
entre as estações nuviosas de 1999 e 2003.
www.nephelibata.com/condelemur


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TRÊS POEMAS, UMA SOLIDÃO
(poemas integrais)


O SER GRIS

Tive eu diante do olhar, n’alva, egrégia neblina,
Tão densa pairava que estranhas formas inopinas
– Quiçá fantasmas ou seres do orbe diacrítico –
Agitavam-se em pantomimas. Tal míticos!

Em meio a ubíquas auras vibravam; eram belizes.
Bóreas oscilantes infundiam-lhes pardos matizes,
E exorados também dos confins do Meridião
Surgiram os Austros. Encadeando a imprecação!

Reentrante, e mais além, podia-se divisar, não cria,
Um lêmure de rara lhaneza e de insigne palor:
Era o ser gris. Matiz do meu eu exterior!

E quanto mais nas nebridas nédias imergia,
Quanto mais avançava em sinistras fraguras...
Esvaeci-me na neblina. Cor da minha amargura!


NO PICO DA NEBLINA

Mais dia menos dia te desnudaria,
Túmida de gris em meio à intempérie.
E no ensejo estro – disse-me – iria
Ao pico... Ver-te nebrida congérie!

Incontinenti perlustrava, apareceste,
Tal rebento ante meu florir ausente.
E ao declive de teu curso fui-me preste
Por espairecer anímico congruente!

Costeando, soturno, a símile encosta,
Argüi todos os biomas temporais
Tal como todos os aulidos animais,

E pairando no tétrico cimo que arrosta
Inspirei à pré-epigênese rebuscada.
Anuindo ao esboço, pois isto sou, nada!


CARTAS A SOLEDADE

I.
Moroso desfaz-se o dia.
Lento à percepção dos zéfiros
Que em conluio fluem em concertos incertos.
Caem cristais gotículas do céu,
Que refulgem no horizonte gris
As ladrilhas que antanho discorri...
E eis que ‘inda lacrimam meus passos!
As vias, n'uma ressonância caluda,
Das copas, despojam-se das folhas,
Dos balcões, desfalecem detríticas,
— todo o entorno urge orgânico.
E eis que me aproximo de ti,
Na solitude das vias, n’alma minha...
Eu ando só, contudo Soledade, te extraño!

II.
Nuvioso desponta o tramonto,
Como bruma que se expande eterna,
Como caligem da epigênese dos tempos provinda,
Vero véu do firmamento.
E não há como não se envolver por ela,
E dela tornar-se amante errante,
Estranha figura, sublimada na bruma...
E logo virão, se aproximarão,
As correntes do sul trazendo ventos d’inverno.
Dar-te-ei as mãos em laivos toques
E assim que as sentires, Soledade,
Estas ambíguas correntes, cálidas e gélidas,
Verás imensamente que como a ti
São elas... Ah, são elas, raras e belas!

III.
Viscoso se instila a véu da noite,
À margem del Plata, o alumiado,
Onde disponho estas cartas — interstícios quiçá,
In quartus poentes de um ausente Kafka.
Oh negro matiz de negra noite,
Por minha pena enegrecida
E p'ra ti este raro escrito meu, Soledade,
Laivos meus e somente teus.
E quando as aléias aquiescerem autunais
E as brumas fixarem-se como afrescos pulsantes,
Beijar-te-ei na gris manhã,
Envolver-te-ei na gélida noite que decai,
Em toques grises de recordos...
E eu estarei em soledade, querendo-te em silêncio!

IV.
Lunoso se põe o negro véu,
Fazendo reverberar sua secular elegia,
E como que cravada junto a outros astros infindos
— partícipes da minha solífuga sinfonia —
Inclina-se Febe, quando a ti me inclino,
Em noite cerrada, pós-autunal,
Espanca atmosfera esta, a que aspiro sozinho!
Oh Lua — tu Trívia ou Febe ou Sin —
Que me alumias na imensidão mesta de um jardim
Quisera eu mais fazer ecoar a soledade,
E às suas reverberações atentar
Tal astro à ponta de uma cima
Que a andar só na amplidão cosmológica
Segue com Ela nesta querela missiva!

V.
Ventoso desponta o matinal,
Sincronizando o redemoinho da solidão.
E célere se aproxima, ciciando em tácito segredo
Uma antiga canção, aos ouvidos meus afeita,
O mitológico furibundo Zéfiro
Que ora malquerido ora apetecido
Traz-me presentes recordos d’estio, recordos teus...
E com ele hojas secas para pirar!
Então no raiar do dia ponho-me silente,
Em meio à intempérie que me conforma,
P'ra aduzir o que em um momento somente
D'orvalhada ambiência, se pode...
Desde ora per sempre
Volta no zeferino vento, Soledade!

VI.
Vultoso despiu-se o dia,
Em um claro-escuro intermitente,
Inquirindo se a temporal alma é eterno tempo,
E se incontáveis são as solidões
Que um único ser pode abarcar!?
Dir-se-ia que somente uma...
Mas é n'alma que se formam as ditologias...
D’um único farol frente a mil mares!
D'uma única solidão aos milhares!
Mas ó temporalidades que me fazem sina,
'Inda nestas cartas, eis a suprema evocação:
Dentre todas as solidões a que me firma
É a Soledade destas missivas,
Bases cósmicas de minha solidão!


Conde de Lêmur. Enquanto os Tempos forem Nublados Estarás Só.
Desterro: Nephelibata, 2006, pp. 25, 46 e 63.