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Alguns Poetas do Hospicio
João do Rio


SINOPSE: João do Rio (1881-1921) viveu e vivenciou seu lugar e seu tempo, o Rio de Janeiro dos primeiros anos do século XX, então capital do Brasil. Dele fez-se um cronista único, não apenas pelos temas de sua pena, mas também pelo seu estilo humorístico, sarcástico e, às vezes, cínico. Escreveu além de crônicas (Jornal de Verão; Cinematographo; Snobismos), contos (Dentro da Noite), ensaios (As Religiões no Rio; O Momento Literário) e uma peça (Última Noite). Suas traduções de Oscar Wilde ainda hoje são elogiadas e publicadas. Nesta seleção do Cinematographo, publicado pela primeira vez em 1909, o leitor poderá constatar a atualíssima pena do cronista em A policia de costumes, considerar sua maestria literária em A casa dos milagres, reconsiderar os andarilhos em Chuva de land-trotters e rir com Alguns poetas do hospicio...   [Leia mais...] [Adquirir...]



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A POLICIA DE COSTUMES
(fragmento)


      Depois de ter concordado com Alfredo Pinto, que é preciso quanto antes levar a cidade a bom caminho e defender com calor a salvação da dignidade urbana que, sabe-o toda a gente, assenta na policia de costumes, fui dar um giro pela rua do Senhor dos Passos. Essa via publica das mais movimentadas, se não é uma rua de maus costumes, é pelo menos uma rua douda. Por lá habita parte da colonia syria, mas ha lá tambem a séde de um distrito policial, e como o distrito é todo de gente que entretem relações com marinheiros, soldados vulgares e malandrins de toda a especie, a séde tem de instante a instante a erupção de praças trazendo presos aos berros, mulheres em furia ou homens ensanguentados. São as crises de insania de rua tão respeitavelmente apelidada.
      Fazia luar, os botequins sordidos fechavam, e eu ia por ali pensando na moralidade das coisas e assobiando um trechinho da linda opereta Tosca. Tosca ou Bohemia? Não sei bem. Puccini é um genio tão grande que as suas obras se confundem. Puccini ou Leoncavallo? Tambem não sei. De resto, o facto essencial é que ia assobiando e pensando, quando, bem em frente á delegacia, uma voz autoritaria chamou:
      — Olá, cidadão!
      Cidadão é uma palavra implicante, cidadão só por desafôro ou em pleno delirio revolucionario, depois de ter estrangulado quarenta homens. Eu serei incapaz de meter a chave numa das caixas de socorro mandadas vir pelo general Antonio Geraldo, mesmo em caso de maior perigo, apenas por que na linha do orificio ha estas palavras: — chave, cidadão. Voltei-me, entretanto, e vi que era um cabo.
      — Que temos?
      — O cidadão está armado?
      — Armadissimo.
      — Então deixe vêr o revólver.
      — Quem lhe disse que era um revólver?
      — Deixe vêr a faca.
      — A faca!
      O homem aproximou-se.
      — Nada de deboches comigo. É contra a lei estar armado. E se você põe-se com pilherias vae direitinho para o xadrez.
      A esse tempo, com a sua autoridade, metia-me a mão na cava do collete e a outra — a disponivel, a que lhe restava, porque duas estavam no chão e a outra na cava — no bolso da calça.
      Eu podia gritar o “não póde!” ou perguntar classicamente: “você sabe com quem está falando?”
      Mas era interessantissimo um transeunte pacifico ser assim revistado pela autoridade em plena rua do Senhor, particularmente dos Passos. Deixei-o fazer. O homem estava carrancudo.
      — Bom, póde ir, não tem nada. Então porque disse que estava armado?
      — Saberá vosmecê que estava e estou — estou armado de paciencia!
      E dito que foi esse desabafo, saí rapido com medo á justa cólera da autoridade.
      Sim, porque, francamente, não havia motivo de queixa. Afinal, aquella scena já antes repetida com outros cavalheiros, que era em sintese? Uma das faces da policia de costumes. Para que o cabo perguntava se eu estava armado? Para que eu, com revólver ou faca, não fizesse a minha desgraça matando alguem. Ha maior perigo do que um homem armado? Maior só dois homens. Assim agindo, a policia estava no seu direito de defeza preventiva da sociedade. Talvez metade das mortes que se têm dado não tivesse acontecido se os cabos ou mesmo os soldados rasos andassem a revistar os homens nas calçadas publicas.
      Então, já longe do cabo, continuei o meu passeio evitando a garantia urbana por um mesquinho sentimento de medo individualista e imaginando ao mesmo tempo o que será a campanha de policiamento de costumes conduzida puritanamente pelo severo Alfredo.
      Com uma boa policia de costumes, a cidade dentro em pouco estará regenerada. Com que direito age a policia? Com o direito da previsão, que é o alicerce da sua utilidade. Não é depois do crime que se é util. É antes. De posse desse principio, a autoridade procede como um cultivador num jardim. Firme para impedir o crime, empalma as armas.
      — Deixe vêr o revólver!
      — Mas eu não vou matar ninguem...
      — Para que serve a arma? Não é para acariciar. Por consequencia evite o desastre!
      Em pouco tempo as delegacias exportarão revolvers e facas, como as fabricas de maior cotação. Restam os negociantes de armas. Um bello dia, o inspetor chega e diz:
      — Cidadão, você está intimado a transformar o seu negocio em casa de brinquedos...
      (...)

João do Rio. Alguns Poetas do Hospicio.
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 07-10.

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