Pensamento...


Karl Jaspers
SINOPSE: "Pela primeira vez, no Brasil, publica-se O Trágico, de Karl Jaspers. Ao trazer a público a cuidadosa tradução de Ronel Alberti da Rosa, as Edições Nephelibata contribuem de modo importante, colocando à disposição, em língua portuguesa, um texto relevante, sobremaneira, nas áreas de filosofia, teatro e literatura, nas quais se constata, felizmente, uma demanda crescente por obras desta natureza. O texto original foi publicado em 1947, em Munique, como um capítulo da extensa obra Da verdade (Von der Wahrheit), tendo sido editado, na mesma cidade, como texto separado, em 1952. Época, local e contexto são três eixos que podem auxiliar-nos na leitura e compreensão deste capítulo, cujo título — belo, grave e atraente —, por si só remete a um grande número de obras artísticas e de visões de mundo. Deve-se notar que, embora tenha sido a tragédia grega do século V a.C. uma das mais conhecidas e estudadas concretizações específicas desse conceito — o trágico —, ela não o esgota, pois iremos encontrá-lo, como categoria estética ou filosófica, por exemplo, também na literatura, no cinema, na música, nas artes plásticas, na filosofia, nas mais variadas épocas..." (Maria Cecília Coelho) [Leia mais...] [Adquirir...]
Do tradutor:
Ronel Alberti da Rosa é diplomado em Regência pela Escola Superior de Música de Colônia, Alemanha (Musikhochschule Köln), e Doutor pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da PUC-RS. É autor de Música e Mitologia do Cinema – na trilha de Adorno e Eisler (Editora Unijuí, 2003) e do CD A Dissonância Trágica – composições de Friedrich Nietzsche (2001).
Apresentação:
Maria Cecília de Miranda Nogueira Coelho é graduada em Matemática e Filosofia pela UnB. É Mestre em Filosofia pela USP e Doutora em Letras Clássicas pela Brown University (EUA) e USP. Foi professora colaboradora na UDESC/FAED, onde coordenou o grupo Gregos e Baianos e o Projeto Filocinema. Atualmente é Secretária da Regional Sul da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos.
RELIGIÃO, ARTE E POESIA
(fragmento)
É próprio do homem como tal lançar o olhar no fundamento da verdade. A verdade está sempre nele e para ele por meio de uma linguagem, por mais tosca e obscura que ela seja.
Com o filosofar metódico, deu-se um salto. Este salto, porém, não faz com que esteja errada a consciência de verdade que antes satisfazia o homem. Aí residem as originárias concepções espirituais que, partindo da mais imemorial tradição, transmitiram ao homem a verdade na forma de imagens, ações e estórias. A força dos mitos, a autoridade das revelações e a severidade da vida são realidades.
Não em forma de reflexão, mas na de fatos inquestionáveis, são dadas respostas às perguntas fundamentais — ainda que estas também nem sejam trazidas com consciência racional: por que a natureza do homem é assim como é? (o pecado original e o mito de Prometeu respondem e, ao mesmo tempo, definem a tarefa humana); como atingir a pureza de minha essência, a redenção e a paz no ser? (Cultos dos mistérios, ritos e normas de comportamento dão resposta e mostram o caminho).
Na mesma época em que a filosofia inaugura o raciocínio metódico, também a linguagem daquelas primeiras concepções atinge sua maior clareza, maturidade e vigor — entre os anos 600 e 300 antes de Cristo.
A filosofia, ela mesma tocada em seu âmago por estas concepções, é delas inseparável, estimulando-as e desenvolvendo-as, combatendo-as e superando-as ou assimilando-as e delas se servindo. A filosofia as vê como sua outra face, resiste-lhes ou acolhe-as em si e as confirma; finalmente, posta-se diante de algumas delas como frente a algo incompreensível, que reconhece como um outro. O constante contato com estas concepções — seja em que sentido isto se tenha dado — faz com que estas se tornem um instrumento do filosofar.
Estas concepções, enquanto linguagem da verdade, são originalmente um todo abrangente, uma unidade indivisível, que dá forma e preenche a vida do homem. No decurso da história, separam-se religião, arte, poesia. Esta separação faz com que o idioma da verdade última separe-se, porém através de todas as partes corre uma unidade, por meio da qual a originária indivisibilidade persiste em seus laços de união.
RELIGIÃO: o que se revelou na religião como fundamento e limite, eficaz como poder da comunidade e apoio do indivíduo, permanece sendo o espaço predeterminado do filosofar e portador dos conteúdos filosóficos. Devido à polarização, assume a forma de um inimigo da filosofia, mas é, ao mesmo tempo, a resistência fecunda e penetrante. Como fundamento da própria humanidade, a religião dá forma à alma, mesmo quando esta alma abandonou a forma histórica determinada da religião tendo, com isso, abandonado à própria religião.
O fim e o esquecimento da religião significaria também o fim da própria filosofia. Surgiria então o irrefletido desespero — não mais consciente de si próprio — um mero viver o momento, um niilismo e, daí, uma superstição caótica. Com o tempo, também a ciência desapareceria. A questão fundamental do homem — o que o homem é e o que pode se tornar, o que será feito dele — não seria mais seriamente colocada nem respondida; acabaria efetivamente encontrando uma resposta em novas metamorfoses, resposta esta que não mais compreende uma existência humana.
ARTES PLÁSTICAS: as artes plásticas fazem com que o visível fale por nós. Vemos as coisas da forma como a arte nos ensina a ver. Conhecemos o espaço por meio das formas que o arquiteto lhe empresta; vemos a paisagem como que concentrada por construções religiosas, moldada por intervenções, apropriada pelo uso. Apreendemos a natureza e o homem como são representados em sua essência nas esculturas, desenhos e pinturas. É como se somente a partir desta representação tudo ganhasse forma, reveladas sua visibilidade e sua alma até então ocultas.
Devemos diferenciar entre arte como representação de um determinado ideal de beleza e arte como linguagem simbólica metafísica. Ambas são apenas uma onde a beleza é o ser transcendente, onde este ser é o belo, onde tudo é realmente belo porque existe. Chamamos de “grande” a arte metafísica, que, com a visibilidade e por meio dela revela o próprio ser. Basicamente, mera técnica artística — estranha à filosofia — é a forma não transcendente da cópia, da decoração, da produção de efeitos sensoriais, na medida em que isso tudo, em vez de ser momento no metafísico, se isola.
POESIA: é um elemento da linguagem graças ao qual todos os conteúdos são apreendidos como representações, é a total abrangente comunicação do revelado. Da magia das palavras no ritual de sacrifício passando pela invocação dos deuses em hinos e preces até a representação de destinos humanos, a poesia perpassa todas as expressões de humanidade. Ela é a semente da própria linguagem, a primeira obra do expressar, do reconhecer, do emocionar. É em forma de poesia que surge a primeira filosofia.
Poesia é o órgão pelo qual apreendemos o cosmos e todos os conteúdos de nossa essência da forma mais natural e evidente. Levados pela linguagem, transformamo-nos a nós mesmos. Impercepti-velmente, a fantasia provocada pela poesia abre em nós o mundo das concepções pelas quais primeiro nos tornamos capazes de apreender significativamente nossas realidades.
(...)
Desterro: Nephelibata, 2004, pp. 19-23.
