nephelibata
Prosa...





O Homem que Ficou Vesgo e Outros Contos
Jason de Lima e Silva


SINOPSE: Livro que reúne contos fantásticos, psicológicos e histórias curtas de humor e de caricatura social.   [Leia mais...] [Esgotado...]


*Jason de Lima e Silva nasceu na Ilha de Santa Catarina, em junho de 1975. Formou-se em Direito e atualmente faz doutorado em Filosofia. Publicou, junto com amigos, o livro de contos Os náufragos (Letras Contemporâneas, 2000). Seu conto "O engodo da memória" foi incluído na Antologia Nefelibata de Contos Fantásticos, 2004.



_____________________________________

O ENGODO DA MEMÓRIA
(conto integral)


       A primeira coisa que sentiu foi o hálito da esposa. Deu-se conta de que havia acordado e abriu os olhos, quando surpreendeu uma velha deitada ao seu lado, com um dos braços a lhe abraçar o peito. Mas o que é isso, pensou consigo. Olhou a sua volta, reconheceu alguns quadros, mas estranhou a porta à esquerda, depois a estante, a penteadeira, o guarda-roupa e, por último, a janela à sua direita. Não sabia que quarto era aquele, nem muito menos como havia parado ali. Foi aos poucos se livrando da coberta e do braço da desconhecida senhora, com todo o cuidado para não acordá-la, afinal tudo aquilo era muito constrangedor, até conseguir sentar-se na cama, não sem alguma dificuldade, pois o simples movimento lhe valeu uma dor no pescoço e umas três pontadas na região dos rins. Sentado, esfregou os olhos para ver se podia acreditar mesmo no que via, sobretudo na existência daquela velha mulher, quando antes viu que suas mãos é que estavam velhas, muito velhas, deus do céu, levou-as à cabeça e sentiu apenas alguns fios a cobri-la. Levantou a camisa de seu pijama, baixou as calças à altura de umas meias laranjas, e viu-se de corpo inteiro inteiramente velho, e diabolicamente dentro de um corpo velho. Cristo, pensou.
       Desistiu de olhar novamente para a senhora e caminhou em direção à penteadeira, com uma vontade de urinar medonha, mas a curiosidade e o temor, como irmãos siameses agora, eram maiores do que tudo. O espelho! Abaixou-se de uma só vez e viu-se também envelhecido, uma pele caída, sulcos a cortar profundamente um semblante que apenas muito vagamente lembravam aquele dos quarenta e dois, a idade que possuía, e que não estava completamente perdida de seus olhos, de seus olhos perdidos na imagem do velho, do velho que não conhecia, e que era ele mesmo. Merda, a dor nos rins. Abriu a porta do quarto, tomou um corredor e, arrastando suas meias laranjas, chegou a uma outra porta. Abriu-a sem pensar e flagrou uma mulher a vestir o sutiã sobre os seios. Pai, disse ela. Pai, perguntou-se ele. E notou que ela olhava para a porta aberta de seu guarda-roupa, onde um espelho devia guardar aquele corpo de seus quarenta anos, e logo atrás dela, deitado sobre a cama, viu que dormia um homem metade coberto, metade descoberto, e a julgar por esta última metade não lhe faltariam pêlos, à exceção da cabeça, até o fim da vida. Pai, falou novamente a mulher dos seios, você precisa de algo? Não, ele respondeu. E fechou a porta.
       Sentiu as pernas lhe tremerem violentamente. Vou cair, pensou, e segurou-se na parede, respirou fundo e, pouco a pouco, sentiu recuperar a confiança nas pernas, muito embora confiança seja uma palavra demasiadamente forte para as pernas daquele senhor. Tomou fôlego e começou a arrastar outra vez suas meias laranjas, quando ouve abrir-se uma porta às suas costas, pai, vira-se lentamente, apoiando-se mais uma vez na parede, você tem certeza de que não precisa de algo? Quero mijar, responde o homem. Mas por que não falou, pergunta a senhora agora devidamente vestida, e sem esperar a resposta, complementa: deixe-me ajudá-lo. Ela o abraça na cintura e ele a abraça nos ombros. Logo estão numa sala não muito grande, ele vê um aparelho de televisão, uma mesa de vidro, umas flores, uns quadros, chegam a uma porta, ela abre, uma privada, era tudo o que ele queria, pode deixar, diz à mulher, eu me viro. Ela sorri e ele fecha a porta.
       Não tem idéia de quanto tempo ficou no banheiro. A primeira coisa que fez não é difícil imaginar, porém sentou para fazê-lo, pois não se agüentava mais de pé. E agora não sabia há quanto tempo tentava pôr sua cabeça no lugar, como se fosse um sonâmbulo, a acordar novamente e a chegar ao banheiro, a repetir inúmeras vezes aquele breve sonho que o abandonara ali, de olhos mais abertos do que nunca, desde quando viu uma senhora deitada a seu lado, depois os móveis e o quarto, o corredor e a mulher dos seios, o homem peludo e a mulher agora vestida, a sala, a privada e sobretudo desde quando se viu num corpo que não era o seu, mas por sentir-se nele, e sentir unicamente por ele, não era capaz de negá-lo, correria o risco de negar a si mesmo. Ouve outra batida na porta, pensou que houvesse imaginado esta batida, mas não, era a segunda vez que a ouvia. Anselmo, chama uma voz do outro lado, Anselmo querido, é a voz mais fraca e mais rouca de sua esposa. Está tudo bem, a voz pergunta. Sim, ele responde involuntariamente. Vou passar então o café, qualquer coisa me chame, diz a voz se afastando.
       Sem saber por que motivo, associa a imagem da esposa à senhora da cama, não pode ser, não pode ser, não pode ser. Parece que entende tudo, quando sente que não entende nada, ou vice-versa, tanto faz, pois neste singularíssimo caso, a ordem dos fatores não altera o absurdo, de tal modo que o homem, à primeira vista chamado Anselmo, não sabe o que fazer. Demora para se levantar e quase esquece de dar a descarga. Lava as mãos, o rosto, olha-se no espelho outra vez, é ele o velho que vê e sente com os dedos: os cabelos tão poucos, as sobrancelhas mais brancas, as pálpebras pesadas, os lábios chupados pelo tempo, o pescoço de galinha, as rugas... Anselmo, ouve ao longe a mesma voz, está trancado? Como trancado, ele se pergunta. Enxuga o rosto e abre a porta. Arrisca-se por um outro corredor, mais comprido que o primeiro, passa por um compartimento que lembra um escritório, por uma porta fechada à direita e um depósito à esquerda, chega a cozinha da casa, nada lhe é conhecido, nenhuma recordação de ter estado naquele lugar, fica parado na entrada, próximo à geladeira, com a sensação de que a realidade, toda a realidade, não passava de uma fumaça de seu devaneio e... Finalmente, hein pai, disse a mulher dos seios, nós já estávamos preocupadas, disse a senhora da cama. A mulher dos seios se levanta, puxa uma das cadeiras, sente aqui pai, ele fica a olhá-la, e ela lhe fala, não quer tomar café conosco, já sei, hoje prefere ficar no quarto, não é mesmo, e olha para a senhora da cama, que complementa, ah, sim, hoje é domingo, domingo tem jogo, não é querido? Deixe que eu o levo, mamãe, diz a mulher dos seios, mas eu não acredito, o pai não tem jeito, mãe, sempre apronta uma, saiu da cama sem as pantufas, veja só, depois não lhe sobra catarro para... Filha, diz a senhora da cama, estou comendo, desculpe, mãe, responde a outra, já posta de pé, a segurar pela cintura o senhor das pernas bambas, que sente novamente o esqueleto lhe tremer, dos pés ao crânio. Apóia-se na mulher dos seios, controla a respiração e chega ao quarto onde tudo começou.
       Está só, novamente só, como estava no banheiro, mas agora sobre a cama já conhecida, a pensar em tudo e em nada ao mesmo tempo, ele que era aquelas meias laranjas e umas canelas finas e descascadas, ele que era aquele membro murcho, sob uma barriga flácida e um peito para dentro. Ele que era, não como metáfora, mas como fato, inteiramente pele e osso. Leva as mãos ao rosto, com vontade de arrancar de uma só vez a pele e ficar apenas no osso, mas não façamos drama, calma, tudo há de se explicar, só pode ser sonho, droga, uma coisa é certa, o sonho pode até nos enganar, mas sabemos quando não estamos sonhando, e de repente ele chora, espreme os olhos e chora, como criança pequena.
       Nesse momento a mulher dos seios entra no quarto, pai, mas o que houve? Coloca a bandeja que trazia consigo sobre o bidê, entre o relógio e o abajur. O que houve, pai, pergunta novamente. O homem olha para ela, sente vergonha não sabe do quê, tenta explicar algo mas não sabe como, esconde-se nas mãos e continua o pranto, sob um apito baixo e contínuo. Fique tranqüilo, pai, está tudo bem, está sentindo dores, é a cabeça, as costas, vamos me diga, o que está havendo? Não sei, ele responde soluçando, não sei quem são vocês, não sei que lugar é este, não sei como me tornei este velho, este corpo que... Cristo! Funga seu nariz comprido e olha para as mangas do pijama. A mulher dos seios lhe traz um lenço, acomoda as costas do homem ao travesseiro, segura suas mãos trêmulas, há de passar, pai, há de passar, você às vezes esquece das coisas, mas seguramente ela não lembra de tê-lo visto assim, tão assustado e a chorar daquele jeito. Espere um pouco, pai, vou pegar um copo d’água, isso, assoe o nariz, já volto. Ela sai do quarto e imediatamente ele pára de chorar, sente ódio de tudo e pensa em fugir daquela casa o mais rápido possível, porém precisa recuperar as forças e... Abre-se novamente a porta, volta a mulher dos seios e junto dela a senhora da cama, a qual se aproxima do homem e o acaricia no rosto, mas o que está havendo, querido, depois o abraça, o perfume não lhe engana... Marilda, a resposta dele é uma pergunta, mas o que está havendo?
       Você é quem deve saber, fala serenamente a senhora da cama, cujo nome parece Marilda, e se afasta um pouco do homem para olhar a mulher dos seios, da qual ainda não sabemos o nome, mas a vemos sorrir, porque de alguém o pai já lembra. Não entendo nada, não entendo nada, diz o senhor com as mãos na cabeça. E pergunta por que Marilda está daquele jeito, uma senhora idosa, e ele, um homem velho, se ainda recordava ter dado boa-noite a ela, um beijo no rosto e um agrado na barriga que crescia semanalmente, Helena nem acordou e nós já vamos dormir, então boa-noite, disse a esposa sorrindo, estou bem feliz. Mas isso faz mais de quarenta anos, querido, interrompeu a lembrança do esposo, olhe, esta é Helena, calma, não fique assim, você vai lembrar de tudo, na nossa idade é comum acontecer esse tipo de coisa. E ele voltava a chorar.
       Não se precisa entrar em detalhes, mas o movimento do quarto não parou. Logo chegou um rapaz de seus quinze ou dezesseis anos, o que é que o vô tem mãe, e a mulher dos seios, chamemo-la Helena, disse vá comer algo na cozinha, filho, depois eu explico. Uns minutos mais tardes entra o homem peludo que dormia no quarto de Helena, acertaríamos se julgássemos seu marido, o que é que houve, pergunta olhando para as mulheres, e Anselmo, sem saber por que razão, larga a torrada que o haviam convencido de comer e sente um profundo ódio por aquele sujeito sem camisa, que poderíamos intuir seu genro, a vestir um calção verde e comprido e a interromper abruptamente as mulheres para dizer chamem o doutor Matias se for o caso, é para isso que servem os médicos, eles dão os remédios e pronto.
       E pronto. Tudo é bem simples nesta vida. Porque o homem peludo não está na pele daquele que abaixa a cabeça e sente, mais do que normalmente sentimos, o fardo de se estar vivo no mundo, num mundo que não lhe pertence, mas é insuficientemente louco, ou demasiadamente racional, para recusá-lo. O homem peludo sai, Marilda e Helena, mãe e filha, olham para o senhor sentado sobre a cama, não escondem dos traços a compaixão, cochicham algo, uma fica e a outra sai, mãe e filha, respectivamente. O tempo que marido e mulher ficam juntos não valeria se fosse contado no relógio, porque o tempo era para um deles, o senhor Anselmo, algo que se havia perdido debaixo do nariz, como se a memória tivesse apenas o olfato de um mundo distante, de modo a não mais reconhecer a outra metade de sua vida. E para Marilda era o tempo de ficar com o marido, e se Anselmo perdesse para sempre os anos de vista, ou do olfato, ela sentiria perder em parte o tempo que também lhe dizia respeito, o tempo da vida que viveu com ele, por isso não lhe soltava as mãos, sem medir as horas que passavam, quando ouvem batidas à porta e outra vez o quarto é aberto. Helena faz um gesto e entra com o médico, Marilda se levanta, olá Matias, como vamos, tudo bem tia, ambos trocam abraços, e o médico se dirige a Anselmo, que recebe seu abraço não muito à vontade, mas indiferente por ignorar o jovem doutor da memória, desiludido que já andava dela.
       A visita do médico é breve, não se tem muito a fazer, é descansar e tomar os remédios, os remédios, Anselmo não perdera o costume de maldizê-los. Era como seu pai que preferia muitas vezes as piores dores a um simples analgésico, meu pai, por onde ele anda, pensou em perguntar à esposa, mas sentiu um terrível medo de saber o que suspeitava, a morte, a morte do pai e da mãe, a morte certamente de muitos amigos, a morte, a morte, nem de suas dores ele podia lembrar, ao menos desde aquela noite, e agora os remédios, os malditos remédios, por quanto tempo eles seriam a sua vida, a única coisa a não ser esquecida! Sem falar dos exames, das consultas com os médicos que o doutor Matias indicou... tudo para dar sentido ao que já estava morto e perdido: o tempo de sua vida, quarenta e tantos anos! Sentia-se um dinossauro a vagar pela terra, um dinossauro... não um homem.
       Mas o tempo continua a passar. E isso é o pior para Anselmo, que vê a noite chegar de seu quarto, do qual só saiu para evacuar e lavar-se, e é Marilda quem o ajuda no banho, aliás, é a única pessoa que a proximidade não o perturba, nem mais a filha quer ver, Helena, de fato é muito para o coração de um homem, sobretudo para o coração de um velho. O mesmo vale para o neto, que apareceu e desapareceu do quarto pela manhã. Não fez questão de vê-lo. E o genro nem se fala... mas é por outro motivo, não é de hoje, uma história antiga na verdade, faz uns vinte anos, quando ele vendeu o carro para você, Anselmo... mas isso não precisa ser lembrado, e Marilda continua a lavar o esposo. Mais tarde, ambos se deitam, uma idade a contar com outra, ela arruma a cama, você pode apagar a luz, querido, claro, ele responde, Marilda se empenha para que o marido não se sinta completamente inútil, ainda é um homem, há de melhorar, ela pensa, e seus olhos viram duas gotas de lágrimas, porque não era mais possível segurar. Anselmo não se dá conta de nada, aliás, já se calou há horas, agora está deitado de costas para a esposa e nem lembrou de lhe dar boa-noite, boa-noite ela diz, boa-noite, ele responde. E ela lhe abraça para senti-lo vivo, ao menos fisicamente.
       Ouve-se uma trovoada. Os ponteiros luminosos do relógio indicam duas horas da manhã, Marilda respira profundamente, e o relógio bate, bate segundo a segundo o seu tique-taque, e Anselmo no meio da escuridão e de olhos tão abertos quanto antes, quando tudo começou... Acende o abajur, senta na cama, abre um frasco de remédios e toma um, toma dois, a imagem do pai lhe aparece, toma três, a chuva começa lá fora, toma quatro, cinco, o médico falou para não esquecer dos remédios, toma seis, sete, a janela parece maior, toma oito, nove, toma sem pressa alguma, afinal para que ter pressa nesta vida, olha para trás e tem a impressão de ter visto o neto, aquele rapaz que não lhe dizia coisa alguma, pelo qual não sentia nada, absolutamente nada. Nada tem mais sentido. Anselmo calça as pantufas, caminha até a cozinha, acende a luz, procura não fazer barulho, estão todos dormindo e chove ainda mais. Abre alguns compartimentos, encontra uma caixa, remédios, muitos remédios, seu pai aparece na soleira da porta, aperta a cabeça e diz não, não quero tomar essas bagas. Atrás dele vem o neto, o que o vô está fazendo de pé, ele pergunta, Anselmo sequer o olha, apenas balbucia, tenho dores na cabeça. O rapaz bebe um copo d’água, encara mais uma vez o avô e diz, espero que o senhor melhore logo, e volta para o quarto. E Anselmo vai engolindo uma pílula atrás da outra, algumas mastiga, são analgésicos, calmantes, anti-febris, anti-depressivos, verdes, vermelhos, amarelos de um lado e pretos de outro, se não fosse pela esposa não haveria tantos remédios em casa e... as coisas parecem fugir a sua volta, um ruído intermitente começa no interior do cérebro, o coração acelera, e ele tem a impressão de que as mãos crescem e diminuem a cada batida, tum tum, tum tum, tum tum. Segura-se nas paredes e usa das últimas forças para chegar ao quarto, o caminho é fácil, basta dar a volta e seguir reto, é o que diz sua memória, ele ri, mas o que é a memória, e para que nos serve, para nos enganar? Deita-se novamente em sua cama, apaga o abajur e tosse, tosse e ouve o ruído cada vez mais forte. As batidas no peito aumentam. A chuva não pára e o coração...
      O sol entra pela janela. Está encharcado de suor. Anselmo, acorde Anselmo, pelo amor de Deus, é a voz da esposa que logo começou a gritar, por que Anselmo, por que você fez isso! Batia no rosto do marido e fazia a cama tremer naquela manhã de segunda-feira, montada com sua enorme barriga sobre o corpo pálido e robusto de Anselmo, sem compreender o porquê de tudo aquilo, os remédios no chão, os olhos revirados, o coração mudo dentro do peito, e a sentir súbita e violentamente seu ventre revirar-se, como se um pesadelo tivesse acordado Helena, a quem o pai nunca mais conheceria, nem muito menos Helena o veria velho esquecido dela e de alguns bons anos de sua própria vida.


Jason de Lima e Silva. O Homem que Ficou Vesgo e Outros Contos.
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 71-84.