nephelibata
Pensamento...





Do Suicídio
David Hume


SINOPSE: Demorou muito para que as principais obras de David Hume (1711-1776), reconhecidamente o maior dos filósofos britânicos, ganhassem corpo em traduções para o português. O importante é que hoje a maior parte de sua obra já se encontra traduzida no Brasil, disponível em diferentes edições. Esta edição coloca à disposição do leitor a tradução de mais alguns textos. Compõem este volume os ensaios Do suicídio e Da imortalidade da alma, e ainda a autobiografia, Minha vida. Os dois primeiros ensaios foram impressos e até mesmo distribuídos durante a vida do autor, mas foram retirados do volume para evitar um possível processo contra Hume, e somente após a sua morte foram abertamente publicados. Podemos dizer então que esta edição reúne três textos póstumos de Hume. Estão neste volume também dois relatos sobre os últimos dias de vida de Hume: a carta de Adam Smith ao editor Willian Strahan e uma entrevista com Hume, feita por James Boswell.   [Leia mais...] [Esgotado...]


Originais: Of Suicide / Of the Immortality of the Soul / My own Life / Letter from Adam Smith, LL.D.
to William Strahan, Esq. / An Account of My Last Interview with David Hume, Esq.


Dos tradutores:
Daniel Sbowoda Murialdo: Graduado em Filosofia pela UFSC.
Atualmente cursa mestrado na área de Ontologia e Linguagem.


Davi de Souza: Graduado em Filosofia pela UFSC. Mestre
em Ética e Filosofia Política pela PUCRS. É tradutor e livreiro.


Jaimir Conte: Professor da UFRN, é Doutor em Filosofia pela USP.
Traduziu
O Ceticismo Filosófico de André Verdan (Ed.UFSC, 1988)
e
História Natural da Religião, de David Hume (UNESP, 2005).


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ÚLTIMA ENTREVISTA COM DAVID HUME
(fragmento)


      Em uma manhã de Domingo, 7 de julho de 1776, sendo demasiado tarde para ir à igreja, fui visitar o Sr. David Hume, que retornara de Londres e Bath moribundo. Encontrei-o só, numa postura reclinada em sua sala de visitas. Estava magro, pálido e com aparência algo mundana. Vestia um traje de cor cinza com botões de metal brancos e uma espécie de peruca raiada. Estava bem diferente da figura aprumada que costumava apresentar. Tinha diante de si a Philosophy of Rhetoric do Dr. Campbell. Parecia tranqüilo e até mesmo bem disposto. Disse que se aproximava de seu fim. Creio que foram estas suas palavras.
      Não sei como fiz para que o assunto da imortalidade fosse introduzido. Hume disse jamais ter alimentado qualquer crença na religião desde que começara a ler Locke e Clarke. Perguntei-lhe se fora religioso quando jovem. Disse que sim, e que costumava ler o Whole duty of men, do qual fizera um resumo do catálogo de vícios do final do livro e que se examinava a si mesmo por este resumo, deixando de lado homicídio, roubo e outros vícios semelhantes, uma vez que não tinha a menor chance de cometê-los, não tendo inclinação para tal. Disse ser um exercício estranho, por exemplo, verificar que — embora se distinguindo de seus colegas de escola — não sentia orgulho ou vaidade. Sorriu ridicularizando isto como absurdo e contrário aos princípios estabelecidos e conseqüências necessárias, não advertindo que a disciplina religiosa não pretende extinguir, mas moderar as paixões; e certamente, um excesso de orgulho ou vaidade é perigoso e geralmente prejudicial. Disse categoricamente que a moralidade de toda religião era má, e, creio que não estava brincando ao dizer “que ouvindo falar que um homem era religioso, concluía que era um tratante, embora conhecesse alguns exemplos de homens religiosos que eram bons”. Isto foi apenas o reverso extravagante do comentário comum quanto aos infiéis.
      Eu tinha uma tremenda curiosidade a satisfazer acerca de sua persistência em não acreditar num estado futuro, mesmo tendo a morte diante dos olhos. Pelo que me dizia agora, e da maneira como o dizia, convenci-me de que ele continuava não acreditando. Perguntei-lhe se não era possível que houvesse um estado futuro. Respondeu que era possível que um pedaço de carvão colocado sobre o fogo não queimasse; e acrescentou que a idéia de que ele pudesse existir para sempre era a mais disparatada fantasia. Que a imortalidade, caso existisse, deveria ser comum a todos. De tal modo que, se uma grande parte da raça humana dificilmente tivesse quaisquer qualidades intelectuais, ou se uma grande parte morresse na infância antes de possuir razão, todos, não obstante, deveriam ser imortais. Da mesma maneira, um porteiro que se embriagasse de gim desde as dez horas da manhã deveria ser imortal; a escória de todos os tempos deveria ser preservada e novos universos deveriam ser criados para conter tais números infinitos.
      Parecendo-me que estas objeções não eram filosóficas, disse: “Sr. Hume, o senhor sabe que o espírito não ocupa espaço”. Devo ilustrar o que ele dissera ao final, mencionando que numa primeira conversa que tivemos sobre o tema ele usara quase o mesmo modo de raciocínio, argumentando que Wilkes e sua turba deviam ser imortais.
      Certa noite, em maio passado, subindo pela Kingstreet, Westminster, encontrei Wilkes, que me levou à rua Parliament para ver uma curiosa procissão que passava: o funeral de um acendedor de lampiões escoltado por centenas de colegas de profissão carregando tochas. Wilkes, que é ou afeta ser um infiel, repetia constantemente: “acho que é o fim para este camarada; creio que não levantará de novo”. Eu, muito calmamente, lhe disse: “você me fez lembrar do argumento mais forte que já ouvi contra um estado futuro”, e então lhe falei do argumento de David Hume de que eles, Wilkes e sua turba, deviam ser imortais. Pareceu-me causar uma impressão peculiar, pois sorriu desconcertado, como quando um negro empalidece ao enrubescer.
      Mas retornando a minha última entrevista com David Hume, perguntei-lhe se a idéia da aniquilação jamais lhe causara alguma apreensão. Respondeu que de maneira alguma. Não mais do que a idéia de que jamais houvesse existido, como observa Lucrécio. “Bem Sr. Hume”, disse-lhe eu, “espero triunfar quando encontrá-lo num estado futuro, e de lembrá-lo que não pretendia estar brincando com toda esta incredulidade”. “Não, não”, disse ele, “pois já estarei lá há tanto tempo antes de você chegar que não haverá novidade alguma”.
      Neste tom de bom-humor e frivolidade conduzi a conversa...
      (...)

                                                                     *Crônica de James Boswell sobre uma última conversa com o filósofo.


David Hume. Do Suicídio. Trad. de Daniel S. Murialdo,
Davi de Souza e Jaimir Conte. Desterro: Nephelibata, 2003, pp. 11-17.