Pensamento...


[Para uma crítica da razão política]
Michel Foucault
SINOPSE: Neste momento, em que o discurso político é muito insistente sobre a necessidade de vigilância, chamada de segurança, este texto de Michel Foucault surge como uma reflexão, e ao mesmo tempo, uma percepção sofística — ou seja, sábia — sobre a racionalidade política, sobre a forma de pensar a política, tão presente nos legisladores atuais; este texto não dá respostas, não aponta caminhos, mas refaz o passado, mostrando como o grande monstro político atual, com suas normas econômicas, seu sistema educacional e sua polícia, formou-se e nos educou.
"Michel Foucault formulou uma nova leitura do fenômeno do poder. Nessa perspectiva, independente de haver ou não "fases" diferenciadas na sua obra, Omnes et singulatim, apresentado em conferência de duas partes em 1979, e publicado em francês em 1981, revela-se como texto particularmente importante entre as dezenas de "ditos e escritos" do autor. Nele, Foucault apresenta, em linhas gerais, o "poder pastoral", relação de poder inaugurada pela tradição judaico-cristã, conservada e transformada em modelo de exercício do poder na modernidade." (Selvino J. Assmann) [Leia mais...] [Adquirir...]
Do tradutor: Selvino J. Assmann, natural de Venâncio Aires (RS), é mestre e doutor em filosofia pela
Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Atualmente, é docente de filosofia da Universidade Federal de Santa
Catarina. Interessado pela temática da ética e da filosofia política, tem escrito artigos em revistas e livros da área.
(fragmento)
O título parece pretensioso, eu sei. Mas a razão é neste caso precisamente sua própria desculpa. Depois do século XIX, o pensamento ocidental nunca deixou de criticar o papel da razão — ou da falta de razão — nas estruturas políticas. Por isso é totalmente inconveniente lançar-se mais uma vez em tão vasto projeto. A própria freqüência das tentativas anteriores é, entretanto, a garantia de que todo novo empreendimento será tão coroado de sucesso quanto os precedentes — e, seja como for, provavelmente tão feliz.
Eis-me, assim, desde o início, no embaraço de quem não dispõe senão de esboços e de bosquejos inacabáveis a propor. Há bons anos que a filosofia renunciou a buscar compensar a impotência da razão científica, a ponto de nem tentar mais completar seu edifício.
Uma das tarefas das Luzes era a de multiplicar os poderes políticos da razão. Mas os homens do século XIX iriam bem cedo perguntar-se se a razão não estava destinada a tornar-se potente demais em nossas sociedades. Começaram a inquietar-se com a relação que eles divisavam confusamente entre uma sociedade inclinada à racionalização e certas ameaças pesando sobre o indivíduo e suas liberdades, a espécie e sua sobrevivência.
Dito de outra forma, depois de Kant, o papel da filosofia foi o de impedir a razão de ultrapassar os limites do que é dado na experiência; mas, desde aquela época — ou seja, com o desenvolvimento dos Estados modernos e a organização política da sociedade — o papel da filosofia foi também o de vigiar os abusos de poder da racionalidade política — o que lhe dava uma esperança de vida bastante promissora.
Ninguém ignora tais banalidades. Mas o fato mesmo de que sejam banais não significa que não existam. Na presença de fatos banais, cabe-nos descobrir — ou tentar descobrir — os problemas específicos e talvez originais que estão relacionados com os mesmos.
O vínculo entre a racionalização e os abusos do poder político é evidente. E ninguém precisa esperar a burocracia ou os campos de concentração para reconhecer a existência de tais relações. Mas o problema consiste então em saber o que fazer com um dado tão evidente.
Moveremos o “processo” à razão? Na minha opinião, nada seria mais estéril. Antes de mais, porque não se trata nem de culpabilidade nem de inocência neste campo. Depois, porque é absurdo invocar a “razão” como a entidade contrária à não-razão. Por fim, porque um processo desse tipo nos colocaria numa armadilha obrigando-nos a jogar o papel arbitrário e enfadonho do racionalista ou do irracionalista.
Vamos indagar essa espécie de racionalismo que parece ser típica de nossa cultura moderna e que remonta às Luzes? Esta, creio eu, é a solução que alguns membros da Escola de Frankfurt escolheram. Minha intenção não consiste em abrir uma discussão sobre suas obras — e elas são das mais importantes e das mais preciosas. Sugeriria, da minha parte, outro modo de estudar as relações entre a racionalização e o poder:
1) É sem dúvida prudente não tratar da racionalização da sociedade ou da cultura como um todo, mas analisar esse processo em diversos domínios — cada um deles enraizando-se em uma experiência fundamental: loucura, doença, morte, crime, sexualidade, etc..
2) Considero perigoso o próprio termo racionalização. Quando alguns tentam racionalizar algo, o problema essencial não consiste em verificar se eles se conformam ou não aos princípios da racionalidade, mas em descobrir a que tipo de racionalidade eles recorrem.
3) Ainda que as Luzes tenham sido uma fase extremamente importante em nossa história e no desenvolvimento da tecnologia política, creio que devemos referir-nos a processos bem mais recuados no tempo se quisermos compreender como nos deixamos pegar na armadilha da nossa própria história.
Tal foi minha “linha de conduta” em meu trabalho precedente: analisar as relações entre experiências como a loucura, a morte, o crime ou a sexualidade, e diferentes tecnologias do poder. Meu trabalho daqui em diante conduz ao problema da individualidade — ou, deveria eu dizer, da identidade em conexão com o problema do “poder individualizante”.
(...)
Desterro: Nephelibata, 2006, pp. 15-18.
