Pensamento...


Michel Foucault
SINOPSE: Neste volume o leitor encontrará quatro entrevistas com o pensador francês Michel Foucault (1926-1984), feitas por diferentes pessoas ligadas ou não à filosofia. A presente seleção teve como critério a escolha de questões voltadas à liberdade do indivíduo ou àquilo que Foucault chamou, em seus últimos estudos, uma estética da existência. Aqui se encontrará Foucault respondendo perguntas e fazendo considerações, refletindo e propondo questões sobre diversos assuntos: filosofia, política, drogas, sexo, amizade, escrita, liberdade, etc. Trata-se de um pensador em dia com seu tempo, seu meio, e com certeza, com seus leitores, que, diga-se de passagem, são bem diversificados e em parte encontram-se fora dos muros das universidades. [Leia mais...] [Esgotado...]
Dos tradutores:
Jason de Lima e Silva é graduado em Direito pela UFSC, Mestre e Doutor em Filosofia pela PUC-RS,
com tese sobre o tema genealogia do presente e estética da existência nos últimos
escritos de Foucault.
Davi de Souza é graduado em Filosofia pela UFSC e Mestre pela PUC-RS, onde defendeu
dissertação com o tema A propósito da constituição do sujeito moral em Michel Foucault ,
na área de Ética e Filosofia Política.
(fragmento)
─ Censuram-me às vezes por escolher pensadores marginais em vez de extrair meus exemplos do fundo da história tradicional. Eu lhes daria uma resposta esnobe: é impossível considerar como obscuros personagens tais como Bopp ou Ricardo.
─ Mas seu interesse por aqueles que a sociedade rejeita?
─ Eu analiso as figuras e os processos obscuros por duas razões: os processos políticos e sociais que permitiram a ordenação das sociedades do oeste europeu não são muito visíveis, foram esquecidos ou se tornaram comuns. Estes processos fazem parte de nossa paisagem mais familiar e nós não os vemos mais. Ora, para a maioria, eles um dia escandalizaram as pessoas. Um de meus objetivos é mostrar às pessoas que bom número das coisas que fazem parte de sua paisagem familiar — que elas consideram como universais — são o produto de algumas mudanças históricas muito precisas. Todas as minhas análises vão contra a idéia de necessidades universais na existência humana. Elas ressaltam o caráter arbitrário das instituições e nos mostram qual espaço de liberdade nós dispomos ainda, quais são as mudanças que ainda podem se efetuar.
─ Seus escritos freqüentemente são portadores de emotividades profundas que raramente se encontram em análises acadêmicas: a angústia, em Vigiar e punir, o desprezo e a esperança, em As palavras e as coisas, a indignação e a tristeza, na História da loucura.
─ Cada um de meus livros representa uma parte de minha história. Por uma razão ou outra, foi-me dado vivenciar essas coisas. Para tomar um exemplo simples, eu trabalhei num hospital psiquiátrico durante os anos cinqüenta. Depois de ter estudado filosofia, eu quis ver o que era a loucura: havia sido suficientemente louco para estudar a razão, e fui suficientemente razoável para estudar a loucura. Neste hospital, eu era livre para me mover dos pacientes à equipe médica, pois não possuía uma função precisa. Era a época do esplendor da neurocirurgia, do início da psico-farmacologia, o reinado da instituição tradicional. Num primeiro momento, aceitei estas coisas como necessárias, mas ao cabo de três meses (eu tenho um espírito lento!), comecei a me interrogar: “mas por que essas coisas são necessárias?” Ao fim de três anos, eu abandonei este emprego e fui para a Suécia, com um sentimento de intenso mal-estar pessoal; lá comecei a escrever uma história dessas práticas.
A História da loucura era para ser o primeiro de vários volumes. Gosto de escrever primeiros volumes, mas detesto escrever os segundos. Viu-se, em meu livro, um gesto psiquiatricida, ainda que fosse uma descrição de tipo histórico. Você sabe qual é a diferença entre uma verdadeira ciência e uma pseudociência? A verdadeira ciência reconhece e aceita sua própria história sem se sentir atacada. Quando você diz a um psiquiatra que sua instituição nasceu do leprosário, ele se irrita.
─ Qual foi a gênese de Vigiar e punir?
─ Devo admitir que eu não havia tido nenhuma ligação direta com prisões ou prisioneiros, muito embora eu tivesse trabalhado como psicólogo numa prisão francesa. Quando eu estava na Tunísia, vi pessoas aprisionadas por motivos políticos, e isto me influenciou.
─ A idade clássica é uma época central em todos os seus escritos. Você sente nostalgia pela claridade dessa época, ou pela "visibilidade" do Renascimento, época em que tudo era unificado e exposto?
─ Toda esta beleza das épocas antigas é muito mais um efeito do que uma causa da nostalgia. Sei muito bem que somos nós que a inventamos. Mas é bom, antes de tudo, experimentar esse tipo de nostalgia, assim como é bom ter uma boa relação com a própria infância caso se tenha filhos. É bom experimentar a nostalgia por alguns períodos, desde que seja uma maneira de manter uma relação refletida e positiva com o presente. Mas se a nostalgia se torna uma razão de se mostar agressivo e incompreensivo para com o presente, então é necessário bani-la.
(...)
e Davi de Souza. Desterro: Nephelibata, 2004, pp. 17-19.
