Prosa...


Antologia Nefelibata
SINOPSE: "Toda antologia peca pelo que exclui, mas é justamente por essa exclusão que releva aquilo que foi escolhido. E o que aqui foi selecionado faz parte do que se convencionou chamar literatura fantástica. O termo “fantástico”, segundo o velho Aurélio, é um adjetivo que passa o sentido do que só existe na fantasia, na imaginação, é o que se diz de algo imaginário, caprichoso, incrível, extraordinário, inventado, falso. Tal literatura, portanto, está em oposição àquele tipo comum de realismo que se encontra em milhares de escritores; e está também em conflito com a própria realidade, na medida em que lhe opõe um outro mundo — um mundo de irrealidades e fantasias. Historicamente essa literatura construtora de mundos irreais tomou muitas facetas, desde o humor até o horror, e mesmo muitas vezes ligou esses dois extremos: fazendo humor negro. Freqüentemente essa literatura usa de alguns recursos que se lhe tornaram comuns: loucura, inventos científicos, drogas e o recurso aos lugares inacessíveis [...]. Quando esses recursos são de todo abandonados e, no entanto, a narrativa permanece no domínio do irrealizável, no século passado, denominou-se-lhe realismo fantástico. Numa antologia nefelibata, onde a ilusão é um amplo chão de nuvens e onde o leitor é convidado a adentrar na irrealidade, há toda uma gama de mundos cujos interiores são tão díspares com nosso fútil mundinho mercantil, que marcará, como ferro em brasa sobre uma carne viva, lá no íntimo, um símbolo de névoas... Tocado por esta literatura, estigmatizado por seu símbolo, o leitor — o raro leitor — tem aí uma porta aberta para um outro mundo, um mundo onírico, e realmente nefelibata..." (Camilo Prado) [Leia mais...] [Adquirir...]
Néarkhos Georgiádis, Gonzaga Duque e Jason de Lima e Silva.
Dos tradutores:
Miguel Sulis é doutorando em Literatura pela UFSC e tradutor;
Apóstolo Nicolacópulos é professor de Inglês e Grego da UFSC;
Jaimir Conte é Doutor em Filosofia pela USP e professor da UFRN;
Gleiton Lentz é Mestrando em Tradução pela UFSC e tradutor;
Camilo Prado é tradutor e editor das Edições Nephelibata.
Lembranças Ocultas
Villiers de l'Isle-Adam
Eu sou procedente, disse-me ele, eu, último Gaël, duma família de Celtas, duros como nossos rochedos. Pertenço a esta raça de marinheiros, flor ilustre do Armor, cepa de bizarros guerreiros, cujas ações de brilho figuram no número de jóias da História.
Um desses predecessores, ainda jovem, exasperado tanto da vida quanto do fastidioso convívio com seus próximos, exilou-se para sempre da casa natal, com o coração pleno dum esquecido desprezo. Era então época das expedições para a Ásia; foi combater para os lados do bailio de Suffrent e logo se distinguiu, nas Índias, pelo misterioso ataque surpresa que executou, sozinho, no interior das Cidades-mortas.
Essas cidades, debaixo de céus brancos e desertos, jazem em ruínas no centro de horríveis florestas. Os faréoles, o capim, as ramas secas cobrem o chão e fecham as veredas que foram antes avenidas populosas, de onde o barulho dos carros, das armas e dos cantos desapareceu.
Nem brisas, nem chilreios, nem fontes no calmo horror dessas regiões. Os bengaleses, mesmo eles, afastam-se, aqui, dos velhos ébanos, alhures suas árvores. Entre os escombros, acumulados nas clareiras, de imensas e monstruosas erupções de longuíssimas flores, cálices funestos onde ardem, sutis, os espíritos do Sol, erguem-se, estriados de azul, nuances de fogo, veias de cinabre, semelhantes aos radiosos despojos duma miríade de pavões desaparecidos. Um ar quente de mortais aromas pesa sobre os restos mudos: como um vapor de piras funerárias, um azul, embriagante e torturante suor de perfumes.
O ousado abutre que, peregrino dos planaltos de Cabul, demora-se sobre esta terra e a contempla do cume de alguma tamareira negra, agarra-se aos cipós, de repente, somente para aí se debater numa súbita agonia.
Aqui e ali, arcos quebrados, informes estátuas, pedras, inscrições mais corroídas que aquelas de Sardes, de Palmira ou de Khorsabad. Em algumas dessas inscrições, que ornaram o frontão, outrora perdido nos céus, das portas dessas cidades, o olho pode decifrar ainda e reconstruir o zenda, apenas legível, essa soberana divisa dos povos livres de então:
“...E DEUS NÃO PREVALECERÁ!”
O silêncio só é quebrado pelo deslizar das cascavéis, que ondulam entre as carcaças caídas das colunas, ou se enroscam sobre si mesmas, sibilando, sob os musgos ruivos.
Às vezes, nos crepúsculos da tempestade, o grito longínquo do burro selvagem, alternando tristemente com os estilhaços do trovão, inquieta a solitude.
Sob as ruínas prolongam-se galerias subterrâneas de acessos perdidos.
Ali, há séculos, dormem os primeiros reis dessas estranhas regiões, dessas nações, mais tarde sem mestres, das quais já nem o nome existe mais. Ora, esses reis, segundo os ritos de algum costume sagrado sem dúvida, foram sepultados sob estas abóbadas, com seus tesouros...
(...)
Sonhador
Kostas Karyotákis
Não sabia se era um micróbio ou um mal-feitor invisível, ou ainda outra coisa. Mas acreditava que o Tempo existia no espaço. Tinha evidências suficientes.
Uma vez, em uma viagem distante, o vapor passou pelo porto de uma cidade interiorana onde vivera quando pequeno. Saiu, querendo relembrar sua vida de infância. Era domingo. Na praça a banda tocava alguma ópera italiana. As pessoas davam voltas ou sentavam-se no café. As crianças, as que não corriam, acompanhavam os movimentos do maestro. Uma bem-aventurança disfarçava tudo.
Viu a casa de seus pais. O jardim. O terraço onde subia para empinar papagaios, ou para declarar guerra de pedra, amarrando às pressas bandeirinhas de papel.
Nada mudara. As cadeiras da confeitaria em três fileiras, como outrora. Até mesmo o calçamento que pisava era o mesmo. Tudo era o mesmo. Só que diminuíram. Diminuíram desesperadamente. Perderam um terço de seu volume. Mas isso aconteceu simetricamente, e dessa forma as pessoas que sentavam imóveis e silenciosas, como ausentes, ao redor das mesas de mármore, e as meninas, mais além, com as linhas luminosas de sua silhueta elevadas paralelamente à água da fonte, e os dois velhos, em um balcão, com as linhas túrbidas, dúbias de seus traços, e os músicos, e até mesmo o maestro, que pensava que segurava o Tempo com sua baqueta – nada perceberam. Mas o Tempo trabalhava livre entre eles, devorando a cada instante algo de sua pobre existência.
Ficou lá por um tempo considerável, absorto, como se esperasse seus pequenos amigos. Foi necessário um apito estridente para que voltasse a si. O vapor partia...
(...)
A Letra "U"
Igino Ugo Tarchetti
U! U!
Escrevi eu essa letra terrível, essa vogal assustadora? Delineei-a eu exatamente? Tracei-a em toda sua tremenda precisão, com seus contornos fatais, com suas duas pontas detestáveis, com sua curva repugnante? Verguei eu bem essa letra, cujo som me faz estremecer, cuja vista me enche de pavor?
Sim, eu a escrevi.
E ei-la aqui para vós:
U
E uma outra vez:
U
Olhai-a, fitai-a bem – não tremeis, não empalideceis – tende a coragem de manter nela a vista, de observar todos os seus contornos, de examinar todos os seus detalhes, de vencer todo o horror que ela vos inspira... Esse U!... esse sinal fatal, essa letra repugnante, essa vogal tremenda!
E agora a vistes?... Mas o que digo?... Quem de vós não a viu, não a escreveu, não a pronunciou mil vezes? – Eu sei; contudo perguntarei: quem de vós a examinou? quem a analisou, quem estudou sua forma, a expressão, a influência? quem fez dela o objeto de suas pesquisas, de suas ocupações, de suas vigílias? Quem pousou sobre ela o seu pensamento por todos os anos de sua vida?
Porque... não vedes nesse sinal além de uma letra dócil, inócua como as demais; porque o hábito nos vos deixou indiferentes; porque vossa apatia vos dissuadiu de estudar mais atentamente os seus caracteres... mas eu... Se vós soubestes aquilo que eu vi!... se vós soubestes aquilo que eu vejo nessa vogal!
U
E agora a analisai comigo.
Olhai-a bem, olhai-a atentamente, desapaixonadamente, fixos!
E então, o que isso vos parece?
Aquela linha que se curva e se enforca – aquelas duas pontas que vos miram imóveis – aquelas duas linhazinhas que truncam terrívelmente, inexoravelmente as extremidades – aquele arco inferior, sobre o qual a letra oscila e se balança sorrindo escarnecedoramente – e no interior aquele negro, aquele vazio, aquele horrível vazio que se mostra pela abertura das duas hastes, e se une novamente e se perde na infinidade do espaço...
Mas isto ainda é nada, Coragem!
Redobrai vossa potência de intuição; lançai um olhar mais indagador.
Parti por uma das duas pontas, segui a curva externa, descei, aproximai-vos do arco, passai por baixo, subi novamente, alcançai a ponta oposta.
O que vistes?
Esperai!
Cumpri agora uma viagem ao revés. Descei ao longo da linha interna – descei com coragem, com energia – alcançai o fundo, impedi-vos, parai um instante, examinai-o atentamente; depois subi novamente até a ponta de onde haveis partido inicialmente.
Tremeis? Empalideceis?
Ainda não basta!
Posai um instante sobre as duas linhas que talham suas pontas; andai de uma à outra; depois olhai o conjunto da letra, olhai com um só golpe de vista, examinai todos os seus contornos, aferrai toda a sua expressão... e dizei-me se não vos sentis paralisados, se não vos sentis vencidos, se não vos sentis aniquilados por essa vista?!?!
Eis.
Eu vos escrevo aqui todas as vogais:
a e i o u
Olhai-as? São estas?
a e i o u
E então?!
Mas não basta olhá-las.
Ouçamos agora o seu som.
A. – A expressão da sinceridade, da simplicidade, de uma surpresa leve mais doce.
E. – A gentileza, a ternura expressa inteiramente em um som...
(...)
Desterro: Nephelibata, 2004, pp. 39-41, 101-102 e 173-175.
