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Como já se acusara outrora, há mais de um século, a arte, de modo geral, se tornou mero produto de consumo; nas três grandes artes, na música, na pintura e na literatura, tudo virou “produto”, e os conteúdos questionadores do atual modus vivendi, por sua vez, vêm envoltos em papel de embrulhar presentes e rematados com os lacinhos do sistema. Hoje, um músico, quando apresenta um novo disco, chama-o de seu último “trabalho”, enquanto o empresário da gravadora considera-o um "novo produto”; nas artes plásticas não é diferente, os curadores se transformaram em figuras, por vezes, até mais importantes do que o artista e sua obra, pois é o curador aquele que engrandece ou empobrece uma obra e conseqüentemente um artista; nas letras, grandes editoras se escondem sob a sombra de grandes corporações comerciais, e, ao invés de um editor, tem-se um empresário dos livros. Logo, cair nas graças de um curador, ou de um empresário cultural, é cair nas graças do mercado e da fama, é, em suma, tornar-se um “artista”.
Na literatura, contudo, o livro, muito mais do que um quadro ou um disco, é um artefato que necessita de reprodução, pois enquanto um quadro pode ficar em um museu à disposição dos olhos de milhares de expectadores e um disco pode ser rodado em uma rádio e ouvido por milhares de pessoas, um único exemplar de um livro disposto em uma biblioteca, dificilmente será lido por milhares de leitores, de modo que a própria natureza material do livro requer que seja "reproduzido".
No entanto, há uma perceptível diferença entre aqueles artefatos que contêm arte e os que são reproduzidos aos milhares para o mercado consumidor, ou seja, há uma diferença entre uma obra de arte e um livro, um disco ou um quadro. Pois se toda arte pode ser apresentada em forma de artefato [disco, livro ou quadro], nem por isso todo artefato [disco, livro ou quadro] é uma obra de arte. Pode-se mesmo dizer que raros são os artefatos musicais, livrescos ou pictóricos que contenham arte; são todos artefatos, mas nem todos artísticos.
A Edições Nephelibata, seguindo o temperamento dos poetas simbolistas do século XIX e o espírito punk do “faça você mesmo”, edita livros em pequenas tiragens, artesanalmente confeccionados, um a um, como pelas mãos de um artesão, por seu editor, e destinados a um seleto número de leitores. Se nem todos contêm em si arte, como os de política e filosofia, temos a certeza de que a maioria de nossos títulos literários são preciosidades estéticas, admiradas outrora e hoje esquecidas ou ocultadas pelas grandes editoras atuais e pela uniformidade do “público” e da “crítica”; e se insistimos em títulos estranhos de autores obscuros não é por mero gosto de contrariedade, mas por raro gosto estético e, sobretudo, por nos colocarmos fora do “mercado”.
A Edições Nephelibata não é uma editora; não somos uma empresa; se há em você um desejo irrefreável de nos definir, tome-nos como um movimento, um movimento nephelibata.

                                                                           




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Edições Nephelibata/2008