nephelibata
Poesia...





Líricas
[poesias selecionadas]
Delmira Agustini


SINOPSE: Imagens sensuais e hipnóticas, tecidas silenciosamente e em intenso gris, compõem a atmosfera, amarga e doce, onde o canto sombrio e luminoso criado por Delmira Agustini (1886-1914), poeta uruguaia, ressoa. Sensível aos artifícios da letra de Agustini, que tornam seu canto tão sonoro, a tradução que ora se apresenta, ao lado do texto original, cuidadosamente selecionado e anotado, convidam o leitor a provar dos néctares exóticos, da paixão que evoca, enfim, em um universo que embriaga... (Roger Sulis).
                      "Muitos são os aspectos líricos da poesia delmiriana que, envoltos em uma riqueza expressiva que logra notáveis acertos, se sobressaem em seu discurso poético. Não são poucos os versos carregados por uma simbologia dotada de um poder de sugestão enorme, onde o leitor é levado a inclinar-se em sua direção, tal como a um abismo de misterioso fundo. Em Delmira, são abutres e fungos, vermes e aranhas, vampiros e serpentes, os que dão a matéria para as visões e configurações oníricas; são as estátuas que, como mudos monumentos de pedra marmórea, dão o matiz fundamental de sua obra; são as terras distantes, paisagens remotas, que se convertem em pontos de referência em busca da satisfação de uma necessidade primária: a dos mundos sonhados e perdidos; são versos que oferecem um mundo cheio de evocações que, somados a uma adjetivação sui generis e sinestésica vêm a enriquecer os sentidos, ao mesmo tempo em que a alma fica presa no mistério de seus versos...” (G. Lentz). [Leia mais...] [Adquirir...]


Originais: El Libro Blanco, Cantos de la Mañana, Los Cálices Vacíos e Los Astros del Abismo.


Do tradutor:
Gleiton Lentz é tradutor e nephelibata. Mestrando em Estudos da Tradução pela
UFSC, dedica-se ao estudo e tradução da poesia simbolista italiana e hispano-americana.


Outras traduções pela Nephelibata:
Cantos Órficos, de Dino Campana
O Cirurgião do Mar, de Gabriele D'Annunzio



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QUATRO LÍRICAS
(poemas integrais)


ARABESCO

Adormeci... a cabeça em dispersão repleta
De feitiços, monstros, gemas das Mil e uma Noites.

E sonhei do Oriente, do fabuloso Oriente,
De enigmas, de lendas, de conjuros, de feras,
De elixires enfeitiçados, de longas cabeleiras.
Haxixe, pérolas, perfumes... A grande preguiça ardente.

O rosto pavoroso da Esfinge dormente,
O grande sultão moreno, as fundas bailadeiras
De corpos misteriosos e ritmos de panteras,
E o faquir com sinistras pupilas de serpente.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
É brilhante minha corte, sou morena e sultã,
Em um país distante, uma bela manhã.
Passo pelos desertos em meu branco elefante;
Uma vaga de perfumes levo nos negros riços.
Esgrimem minhas pupilas seus mais fortes feitiços
E oculto um raro frasco com tampa de diamante!


A CANÇÃO DO MENDIGO

Foi uma canção mui triste, uma canção de outrora
Despertada de repente... Foi como se o acento
Vagamente olvidado de uma voz mui amiga
Através dos anos viesse a nos surpreender.
Uma velha ária triste trazendo entre suas pátinas,
                                    Dos dias mui distantes,
Um antigo perfume misterioso e querido,
Cada nota uma velha visão, um velho sonho.

– Oh a grave ária triste, roída pelos anos
Evocou-me um passeio lento em um parque velho
Buscando entre a erva as sendas de outrora
E no adormecido estanque a visão de outros tempos! –
A voz que a dizia era o molde mais digno
                                    Ao seu sabor antigo...
Eu chorei, chorei muito... a manhã era opaca...
A canção era triste... o mendigo mui velho...


MISTÉRIO: VEM...

Vem, ouve, eu te evoco,
Estranho amado de minha musa estranha,
Vem, tu, que agitas os enigmas profundos
No vibrar das pupilas cálidas.
Que aprofundas os leitos de ametista
                      Das olheiras cárdeas...
                      Vem, ouve, eu te evoco,
Estranho amado de minha musa estranha!

Vem, tu, que imprimes um solene ritmo
Ao pestanejo da tumba gelada;
Que ditas os lúgubres acentos
Do dizer profundo das sombras trágicas.
Vem, tu, o poeta afligidor, que pulsas
A lira do silêncio: a mais rara!
A das longas vibrações mudas,
A que se acorda ao diapasão da alma!
                      Vem, ouve, eu te evoco,
Estranho amado de minha musa estranha!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Vem, aproxima-te de mim, que em minhas pupilas
Se fundam as tuas em tenaz mirada,
Vislumbre nelas, o sublime enigma
                      Do mais além, que espanta...
Vem... aproxima-te mais... crava em meus lábios
                      Teus frios lábios de âmbar.
Deguste eu neles o sabor ignoto
Da essência enervante de tua alma!...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
                      Vem, ouve, eu te evoco,
Estranho amado de minha musa estranha!


O INEFÁVEL

Eu morro estranhamente... Não me mata a Vida,
Não me mata a Morte, não me mata o Amor;
Morro de um pensamento mudo como uma ferida...
Não haveis sentido nunca a estranha dor

De um pensamento imenso que se arraiga à vida,
Devorando alma e carne, e que não chega a dar flor?
Nunca levastes dentro uma estrela dormida
Que vos abrasava inteiros e não dava um fulgor?...

Cume dos Martírios!... Levar eternamente,
Dilaceradora e árida, a trágica semente
Cravada nas entranhas como um dente cruel!...

Mas arrancá-la em uma flor que abrisse um dia
Milagrosa, inviolável!... Ah, maior não seria
Ter entre as mãos a cabeça de Deus!!


Delmira Agustini. Líricas. Trad. de Gleiton Lentz.
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 53, 63, 75 e 99.