nephelibata
Poesia...





In Mundos Nefastos
Francisco Chelyfer


SINOPSE: Não estranhe o leitor se, em Francisco Chelyfer, não encontrar uma linguagem dominada por temas demasiado comuns, posto que seus versos — nos quais se encontram toda a purgação de su’alma e as luxúrias do corpo — pendem no vácuo grito gasto pela tortura íngreme sobre a pele ressecada da literatura nacional. Estas cronaxias, que decorrem de uma excitação do nervo motor a uma solidão irremissível do indivíduo, seguidas de um poema, em um mundo danoso, são o resultado de quase tudo o que sucede em uma lírica que se perpetua, isto é, exprimem o inexprimível que provém de um espaço no qual a própria palavra jamais alcançou. De modo que, nada me parece mais difícil, para não dizer arbitrário, do que definir a poesia de um poeta, essa arte misteriosa cuja vida imperecível acompanha nossa efêmera existência. Quanto ao autor destes tortuosos versos, o chelyferiano Francisco, o que mais poderia acrescentar? Acredito ter abordado o essencial... às nuvens.   [Leia mais...] [Adquirir...]


*Francisco Chelyfer, este poeta também não existe.



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TRÊS CRONAXIAS
(poemas integrais)


            QUANDO FINDA O DIA

                                                Para Bia.

            Uma tristeza desfia as carnes
            do meu esqueleto, reflete
            a luz baça que s’infiltra
            pelos vidros, e amordaça
            num silêncio o meu espírito...

            Cândidas, as lembranças que
            s’erguem d’algum sítio ermo,
            embaçadas, doridas, moldam-se
            em mutismos de lamento,
            como se um leito guardasse luto,
            desarrumado e enrijecido pela
            tua ausência...

            Esquivo, ando o olhar através dos vidros,
            percorro nuvens, ao longe,
            esquartejadas de cores em sangue,
            e, ébrio de tons, fechando os olhos,
            esqueço-me...


            AURORA N’ALCOVA

            Silencia a imagem de um sonho,
            Silencia um corpo e silencia um copo, rubros;
            Silencia minha boca em tua boca;
            Silencia o que quer, o que foi,
            Silencia o que é, silencia tudo;
            Silencia, silencia, silencia...


            PLETORA

            O medo
            escala as faces frias de teu rosto;
            estertora a mente insana
            todo este calafrio calado de tua postura;
            esquálida coisa medonha,
            afasta
            a ganância de dor extrema de teu leito
            nas pernas
            que se esperma a tua porra,
            coisa que se cala
                  e que fere tua calma,
                        paciente do amor;
            engessa tua alma,
            protege teu corpo rude,
            tuas rugas, tua boca suja,
            e em teu peito bronco
            abraça tua sombra amiga;
            no galanteio da mórbida manhã,
            ante o sorriso do anjo negro,
            cuspe um novo beijo nos
            lábios desta;
            puta.


Francisco Chelyfer. In Mundos Nefastos.
Desterro: Nephelibata, 2004, pp. 19,36 e 42.