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Nimbus...





Uma Velha Casa Submarina
Camilo Prado


SINOPSE: Existe um espaço velado e distante, uma espécie de mundo supra-real, em que um escritor inquieto e miserável, cansado da mesmice que o rodeia, pode, à custa d'algum esforço não se sabe de que ordem, buscar imagens antagônicas à realidade e mesclá-la com a vida chocha dos comuns, apresentando assim, ao leitor, uma bizarra galeria que se movimenta longe das ruas... E a Musa está aí? talvez; desnudada em uma noite escura, enojada de conduzir ao belo, bêbeda e risonha...   [Leia mais...] [Adquirir...]


*Camilo Prado nasceu no litoral da província de Santa Catarina. É tradutor (de Leopoldo Lugones,
Villiers de L’isle-Adam, Georges Rodenbach, entre outros) e editor das Edições Nephelibata.
Publicou também
Nefas, Os Cadernos de Arthur e Pulcritude.



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O CLUBE
(conto integral)


      São Paulo, como bem sabemos nós que a freqüentamos, não só é cosmopolita como também um gigantesco labirinto de concreto que vela as coisas mais incríveis.
      Creio que faz já uns três anos.
      Cheguei em São Paulo ainda pela madrugada e depois de beber um cafezinho num boteco, desci uma pequena rua onde havia alguns bares e hotéis de terceira categoria e, pelo lado esquerdo, quase que contínuo, vários puteiros. Era cedo e estavam quase todos fechados e a rua deserta. E num deles, que portava à entrada o termo “wiskyria”, fiquei de encontrar-me com um amigo. Lá o encontrei, junto de uma loira encrespada que devia ter quase o dobro da idade dele. Revendo meu amigo abracei-o carinhosamente e disse-lhe que desta vez queria conhecer, enfim, o clube do qual ele havia, numa das vezes anteriores, me falado tão bem. A loira encrespada enviesou os olhos para meu amigo e deu um risinho cínico que só fui entender mais tarde – muito tarde.
      Dispostos a cumprir nosso combinado, mesmo sendo ainda sete ou oito horas da manhã, chamamos um táxi e partimos. Em caminho meu amigo, num tom de orgulho ou pilhéria, contou-me que o pensador francês Michel Foucault havia estado nesse clube quando de uma de suas visitas à cidade. Não quis crer nisso, mas depois me convenci da veracidade da coisa, pois ele riu de mim quando expressei minha dúvida e disse “não, não! É o proprietário do clube que me contou, ele o conheceu; você sabe que eu não tenho idade para ter conhecido o cara na década de setenta. Nessa época éramos crianças!” Assim convencido, a curiosidade e a excitação em conhecer o clube aumentaram. E percebendo isso meu amigo, pareceu-me, procurou excitar-me mais. Disse que seria melhor comermos algo antes, pois levaríamos quase uma hora para chegar, e conhecer todo o clube podia ser demorado e lá não se servia comida. Acertamos então de lancharmos ao chegarmos nas proximidades do clube. Eu, como estava cansado da viagem e acabava de saber que teria uma hora pela frente, resolvi não pensar e deixei meu amigo falando sozinho ao meu lado enquanto voltava os olhos para os retangulares edifícios de concreto que longe e perto cercavam as ruas, recostei no encosto do banco a minha cabeça e fiquei curtindo a voz sonora de meu amigo que dissertava acerca do proprietário do clube.
      Chegando nas proximidades, descemos em frente a uma padaria, nos sentamos nuns banquinhos que se encontravam juntos ao balcão e nos fartamos de massa de trigo e café. Em seguida, assim que saímos caminhando pela calçada, meu amigo me perguntou se eu já havia estado em algum clube desse tipo, respondi que não, pois era a verdade. Isso fez – ao menos foi a impressão que eu tive – meu amigo querer aumentar minha excitação, pois disse repentinamente que tinha que dar um telefonema e retornamos até a padaria depois de termos andado duas quadras. Ficou ao telefone uns quinze minutos e depois lentamente recomeçamos a fazer as duas quadras já trilhadas. Ao fim da segunda quadra dobramos à esquerda e meu amigo apontou do outro lado da rua um velho prédio, pintado todo de preto, de dois ou três andares, com janelões de vidros na fachada e uma única porta no térreo voltada para a rua. Tinha, visto dali, um aspecto sinistro. Sobre a porta havia uma pequena placa, pequena em comparação ao edifício que era de grandes proporções, onde estava escrito “o clube”; ao lado da porta havia um mural incrustado na parede e protegido por grossos vidros, em que li “proibido para menores de dezoito anos” e “exclusivo para sócios”. Perguntei então ao meu amigo se eu teria que me associar, ele disse que não. Bateu à porta, mostrou um cartãozinho, que não identifiquei, diante do olho mágico e os ferrolhos da porta rangeram do outro lado.
      Recebeu-nos um monstrengo com ar de segurança, mas cordial como um pobre submisso a um abonado, que era o meu amigo. Seguimo-lo através de um corredor estreito e sombrio ao fim do qual ele abriu uma porta e gentilmente nos fez entrar. Despedimo-nos então do porteiro e seguimos sozinhos, pois meu amigo sendo sócio do clube, conhecia-o inteiro. A sala onde chegamos parecia uma dessas salas de espera, confortáveis, de altas poltronas felpudas, que eu, até então, só havia visto em filmes no cinema. Entre as poltronas havia cabides que estavam vazios, supus daí que éramos os únicos, ou pelo menos os primeiros, a chegar naquele domingo de manhã no clube. Meu amigo perguntou-me se eu desejava, antes de experimentar alguma das salas, conhecer alguns materiais que ficavam no depósito. Respondi que sim, pois tinha curiosidade em ver os produtos importados de que ele havia me falado em nossos encontros anteriores. Atravessamos, então, uma espaçosa sala forrada de almofadas e espumas e travesseiros e coisas assim, onde me constrangi um pouco por ter que pisar em cima, mas como na minha frente meu amigo caminhava com suas botas sobre travesseirinhos de flores rosas, fiz o mesmo sobre aquela esponjosa sala, que me pareceu muito apropriada para grandes orgias. Logo em seguida chegamos ao depósito.
      Este, cercado de prateleiras, estantes, grandes mesas, cavaletes, estava carregado de chicotes, peças de couros ornadas de ferro, bronze ou alumínio, coleiras dentadas para todas as medidas de pescoços, pênis emborrachados dos tipos mais diversos, algemas e correias com rebites de metal. Passei entre essas coisas como um iniciado passa por uma floresta santa. Pois, era junto à parede dos fundos que estavam depositadas, como peças num museu, os instrumentos maiores e mais curiosos: eram cadeiras com fivelas para amarrar braços e pernas, uma cama em forma de aranha com um mosqueteiro em tela de arame, onde se podia prender até dois casais, uma grande peça que se assemelhava a uma prensa onde um falo de cobre polido devia penetrar um corpo preso na estrutura, e outros tantos instrumentos de prazer com essa aparência torturante dos materiais próprios dos adeptos de Masoch. E sobre tudo isso, umas lâmpadas, encimadas por pequenos chapéus chineses, que pendiam do teto formando no alto um conjunto de sombras que deixavam alguns instrumentos apenas visíveis pela metade... Meu amigo explicava a função de cada um, e me apontava aqueles que tinham por trás de si uma longa ou interessante história; como por exemplo, um certo instrumento que veio da França medieval e fora usado para torturar hereges; tratava-se de uma espécie de mesa onde se amarrava a pessoa, deitada de barriga para baixo, e pingava-se sobre ela, de um castiçal preso numa peça de madeira que se dobrava desde a borda da mesa, a cera derretida das velas. “Antes, disse meu amigo, pingava-se chumbo ou outro metal derretido sobre o corpo; agora são apenas prazerosas lágrimas de vela”.
      Saindo desse depósito de máquinas de prazer, meu amigo perguntou-me se eu não queria experimentar um novo instrumento que estava numa sala abaixo, no subsolo. “Creio que não teremos tempo de aproveitar de todos os aparelhos num dia, disse ele, bem porque à tarde chegam os outros associados e os instrumentos serão ocupados; te sugiro experimentar o mais fabuloso. É meu predileto. O que achas?” Achei bom, e aceitei. Já que estava ali guiado por ele, não custava agradar-lhe e experimentar essa novidade.
      No caminho passamos por uma cozinha onde meu amigo serviu-me água mineral e uma taça de vinho branco gelado. Guardando a garrafa, ele pegou um cigarro de uma cigarreira que estava dentro de uma cestinha de palha sobre a geladeira. Acendeu-o e me ofereceu, dei algumas tragadas e logo senti que, entre outras ervas, ali havia cannabis sativa. “É um composto relaxante, disse ele, serve como uma preliminar para a masmorra”. “Masmorra?”, indaguei. E ele me explicou que o aparelho que íamos usar chamava-se masmorra. E por ter esse nome, estava no subterrâneo do prédio.
      Adentramos então uma sala que tinha quase as dimensões de um ginásio de futebol de salão, onde haviam diversas peças dispostas em duas fileiras, umas afastadas das outras, semelhantes aos equipamentos de uma academia de ginástica. Mas a função desses devia ser outra: eram cadeiras com esporas, camas de ferro com braçadeiras de cobre cintilante, patíbulos em forma de falo, correias de couro que desciam do alto sustentando instrumentos estranhos, pontiagudos, emborrachados e rígidos, correntes que subiam e desciam em roldanas sobre cavaletes de ferro, e tudo, salvo alguns metais que brilhavam seus polimentos, tudo, era de cor escura, marrom, cinza ou preto.
      Uma das máquinas me chamou muito a atenção, por seu tamanho e por seu formato. Era uma estrutura circular de ferro, muito semelhante a esses aros que existem dentro daquelas gaiolas de rato branco que encontramos nas malditas lojas de animais. Estava junto à parede e quase alcançava o teto daquele salão. Na verdade estava presa à parede pelo eixo. Sendo circular, julguei que girasse; perguntei então ao meu amigo como funcionava, e ele, detendo-se frente ao maquinário, apontou-me as suas funções. Ao invés de ficar correndo dentro do aro, como fazem os ratinhos em suas gaiolas, ali a pessoa era bem amarrada à estrutura e girava como numa roda-gigante sem cadeiras. Detalhe interessante, que garantia o prazer de seu uso: embaixo da roda colocava-se um pequeno tanque com água e a cada giro do aro a pessoa ali presa submergia completamente... O nome dessa máquina era roda da fortuna.
      No fim desse corredor de outras máquinas de prazer, meu amigo puxou uma alavanca fixada na parede e um imenso alçapão ergueu sua tampa quase sob meus pés. Ele travou a alavanca e descemos pela escada íngreme que nos levou a uma porta de ferro. Ao abrir a porta e acender a luz, uma penumbra tomou o espaço negro da sala: tudo ali era pintado de preto, exceto a lâmpada que brilhava fracamente sua cor branca e baça. Era a masmorra. Uma sala de uns dez metros quadrados, com as paredes úmidas, feitas de pedras, algumas brutas, e com um cavalete de ferro no centro, parafusado no chão e no teto, com correias de couro e fivelas dependuradas. A parede em frente ao cavalete era diferente das outras, estava coberta por uma película branca, uma espécie de tela. Sobre o cavalete, pregado no teto, havia um projetor que meu amigo ligou para fazer uns testes antes de começar. Na parede oposta havia um grande exaustor que, conforme explicou, funcionava como um ventilador superpotente. “Esse maquinário, chamado masmorra, é criação de um inglês: Eugenie Walter Scott. Na verdade, disse meu amigo, tudo isso é um agrupamento de vários recursos. É uma espécie de obra de arte contemporânea, algo multimídia; nesta sala, preso nas correias, você vê imagens, ouve músicas e trechos literários sincronizados com os movimentos mecânicos do cavalete. Todos esses elementos, você sabe, já existem há muito tempo; é a junção de tudo isso, e, principalmente sua seqüência e sincronia, que é de autoria de Eugenie. Aqui, além de assistir filmes e ouvir leituras, você faz exercícios corporais, excita-se e entra em transe. Interessante, não?”
      Concordei. Ele esboçou um sorriso bonito e perguntou-me se já podíamos começar. Respondi que sim. Tirei as roupas; ele me prendeu os tornozelos e os pulsos nas fivelas, conferiu as correias, e, por segurança, atou-me outra na cintura. Apagou a luz, o que eu não esperava, e saiu da sala...
      Fiquei ali no escuro, nu, amarrado em fivelas pelos pulsos no alto e pelos tornozelos em baixo. Acho que pelo menos uns cinco minutos fiquei pensando que aquilo falhava, ou que meu amigo me pregava uma sinistra peça de humor negro. Eu ali amarrado e nada acontecia, nem música, nem exaustor, nem nada. Chamei meu amigo, perguntando o que houve, mas o silêncio era absoluto, e a escuridão também.
      Mas, depois de passar esses desesperados cinco minutos de silêncio escuro, em que todos os nervos de meu corpo já tremiam com um medo indefinível, senti que as correias nos pulsos me puxavam para cima até me erguerem no ar, e logo em seguida me soltaram e me puxaram novamente e percebi que eram presas em algum elástico ou mola que amorteciam os repentinos puxões; e de repente aquela mecânica pareceu perder o controle, puxando-me para cima e para baixo como se eu fosse uma marionete e um som, absurdamente alto, ecoou na escuridão da sala; logo reconheci uma música dos Dead Kennedys e naquela vibração sonora, tendo o corpo jogado continuamente para todos os lados, quase enlouqueci; pensei que estava sendo desconjuntado e por momentos veio-me a mórbida sensação de que já havia perdido um braço, mas era o esquema mecânico que me puxava apenas de um lado; depois puxou do outro... e a coisa só parou quando acabou a música, e então, sentindo-me como Tiradentes esquartejado em Vila Rica, nas correias frouxas, fiquei pendurado como um morcego morto numa rede de pássaros...
      Novamente o silêncio, que veio tão repentino quanto o término da música, tornou-se-me sinistro, mas dessa vez não durou muito. Logo uma voz masculina e suave, como que vinda do além, começou a falar: Profanar as relíquias, as imagens dos santos, a hóstia, o crucifixo, tudo isso, aos olhos do filósofo, deve ser tão-somente o que seria a degradação de uma estátua pagã. Uma vez que se tenha lançado ao desprezo essas execráveis bagatelas, deve-se aí deixá-las, sem mais preocupar-se com elas; de tudo isso só convém conservar a blasfêmia, não por ter mais realidade, pois desde que não existe mais deus, de que adianta insultar-lhe o nome? Mas é que é essencial pronunciar palavras fortes ou sujas, na embriaguez do prazer, e as da blasfêmia servem bem a imaginação. Não se deve poupar nada; é preciso ornar essas palavras com o maior luxo de expressões; é preciso que elas escandalizem o máximo possível, pois é muito gostoso escandalizar... E quase sem interrupção uma voz feminina continuou, enquanto a tela na minha frente iluminou-se de cenas pornográficas e uma suave brisa, casada com um ruído baixo e contínuo do exaustor, assaltou-me por trás: O tímido entrou, Isabel falou: – Meu dedo sente calor, meu dedo está feliz. (...) O peso sobre as minhas costas significava que o dedo não renunciava. O dedo furioso malhava e malhava. Eu tinha contra as minhas paredes uma enguia enlouquecida que precipitava sua morte. Meus olhos ouviam, meus ouvidos viam: Isabel me inoculava a sua brutalidade. Que o dedo atravesse a cidade, que o dedo perfure os matadouros. Eu sofria com a queimadura, eu sofria, mais ainda, com os nossos limites. Mas o dedo obstinado despertou a carne, mas os golpes me purificaram. Eu estava embriagada em plena pasta, tinha um pipilar de especiarias, me alargava até as ancas... De repente fui puxado pelos pulsos suavemente e a voz mudou; era agora uma voz escrota e rasgada, quase gritante, acompanhada por um riff de guitarras de fundo e imagens de sodomias na tela: Mark prende as mãos por trás dos ombros de Johnny e puxa-o para seu pau... E sendo sacudido e soprado com mais força, vendo em frente um ininterrupto espirrar de falos, ouvi a voz ainda mais alta e urrenta continuar: Um trem irrompe dentro dele, silvando, um navio apita, buzinas, foguetes explodem sobre lagoas poluídas... arcadas de máquinas de fliperama se abrem para um labirinto de fotos pornográficas... um grito ressoa num corredor branco de hospital... mil garotos esporram de uma só vez nas privadas, em banheiros desertos de escolas públicas, em sótãos, porões, em casas sobre árvores, rodas-gigantes, casas abandonadas, cavernas de calcário, barcos a remo, garagens, celeiros, subúrbios cheios de cascalhos e vento atrás de muros de barro (cheiro de excremento seco)... Poeira preta que sopra sobre esbeltos corpos de cobre... A tela apagou-se e a sala caiu nas trevas novamente, e a porra da máquina começou então a sacudir-me e o exaustor a soprar-me com tal força que pensei que ia morrer e comecei a gritar, cheio de pavor. Por alguns instantes me senti como se estivesse voando ou pairando no vácuo, num amplo vazio, num nada; pois estando na escuridão e sentindo meu corpo no ar soprado constantemente por um vendaval absurdo, deu-me a estranha sensação de não ter corpo, de apenas ser num universo negro e vazio...
      Quando o exaustor parou e os ruídos diminuíram, outra música, um outro rock barulhento, soou e chocalhou-me naquelas tiras de couro como um fantoche na mão de uma criança. Mas dessa vez a música acabou em acordes suaves que combinaram com a diminuição dos movimentos e a nulidade do vento; e tudo por fim silenciou, deixando-me de novo naquele silêncio escuro do início... até que meu amigo entrou e acendeu a luz.
      Pensei que fosse me soltar, mas trazia nas mãos um chicote muito longo e, antes que eu pudesse pronunciar qualquer palavra, bateu-me suavemente, o que provocou um arrepio em minha pele. Sorri, disse-lhe que tinha achado interessante a masmorra e que estava um pouco dolorido; pedi para que me tirasse, mas ele resmungou que o jogo ainda não havia acabado e lascou-me, agora com força, aquele chicote nas minhas costas, que me queimou como fogo e me fez gritar de dor. “O que é isso, cara?”, indaguei. Mas ele não me respondeu, apenas mexeu em algumas alavancas que me esticaram como um couro de bicho em desenho animado, mudou a fita de vídeo, apagou as luzes e imediatamente a voz debochada de Jello Biafra sonorizou de novo o ambiente, e escuras imagens, as mais bizarras que já vi, surgiram ante meus olhos, enquanto, na penumbra tremeluzente provocada pelo filme, o meu amigo estalou o chicote no ar sobre a minha cabeça e em seguida começou a me açoitar.
      Aquele couro lategou minha carne como linhas de brasas a beijar-me a pele. Senti-me como uma mosca numa teia e me debati e me debati aos berros, e gritei por socorro e aquilo continuou até que em minha cabeça os pensamentos se converteram todos em falos e vaginas gritantes que saíam da tela e me mordiam, me mijavam, me cuspiam uma viscosidade asquerosa e ao mesmo tempo excitante, que eu engolia tremente, dependurado nas tiras de couro, sentindo por trás a carícia quente do chicote... E uma dormência me envolveu como um lençol limpo e perfumado, deixei de sentir dor e perdi a sensação de meu corpo; como antes, voltei a me sentir um ser etéreo, insensível, vagando num vácuo escuro...
      Despertei de repente desse sonambulismo e senti as correias de couro que me seguravam, o silêncio, a tela muda à minha frente exibindo agora casais trepando em jardins floridos onde brincavam crianças nuas; pelo meu corpo percorreu um calafrio de medo e senti minha pele arrepiada de frio e suor, as mãos de meu amigo subindo pelas coxas e os seus lábios que, úmidos, nas minhas nádegas, lambiam o sangue...

                                                                                     Pântano do Sul, setembro de 2004.
                                                                                     Camilo Prado



Camilo Prado. Uma Velha Casa Submarina.
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 41-54.

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