nephelibata
Poesia...





Cantos Órficos
Dino Campana


SINOPSE: Poeta italiano, Dino Campana (1885-1932), foi causa de muitas incertezas no campo literário, ora por motivos poéticos, ora pelo rechaço social que o envolveu. Contudo, a poesia do único maledetto das letras italianas é aquela que, em ausência da crítica, e realmente contra a crítica, do acaso resultou em um amanhecer. Sua única obra deixada em vida, os Cantos Órficos (1914), retomavam e propunham, de um modo original, na Itália, a grande tradição da poesia simbolista, enriquecendo-a, no entanto, com todas as novas experiências, em particular o orfismo. Seus versos, poemas em prosa, encontram seu núcleo na ânsia de alcançar uma verdade que se lhe apresenta permeio a um caos místico, seu símbolo visivo, e nele instilam imagens em sobressaltos, lampejos, fragmentos que tais quais uma fenda sobre o mar do ser oferecem o espasmo do inexprimível e a ruptura da construção lógica pela busca de um ritmo musical envolvente e único. Desta forma, a tradução que ora chega é a primeira a apresentar, no Brasil, os Cantos Órficos em seu texto integral, em edição bilíngüe, que, tal como os sentidos ocultos que se encontram atrás da ordem aparente das coisas, é núncia igualmente de uma miríade de segredos que vêm expressos em formas intricadas, cuja compreensão se dá somente a poucos iniciados.   [Leia mais...] [2ªedição...]  [Esgotado]


Do tradutor:
Gleiton Lentz é tradutor e nephelibata. Mestrando em Estudos da Tradução pela
UFSC, dedica-se ao estudo e tradução da poesia simbolista italiana e hispano-americana.


Outras traduções pela Nephelibata:
O Cirurgião do Mar, de Gabriele D'Annunzio
Líricas, de Delmira Agustini



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JORNADA DE UM NEURASTÊNICO
(poema integral)


       A velha cidade douta e sacerdotal estava envolta por névoas na tarde de dezembro. As colinas transpareciam mui distantes sobre a planície percutida de estrépitos. Sobre a linha ferroviária se via próximo, em um falso escorço de luz plúmbea, o embarcadouro das mercadorias. Ao longo da linha de circunvalação passavam pomposamente esfumadas figuras femininas, envoltas em peliças, os chapéus copiosamente românticos, aproximando-se em pequenos choques automáticos, elevando a gorjeira carnuda como aves de baixa corte. Uns golpes surdos, uns silvos do embarcadouro acentuavam a monotonia propagada no ar. O vapor das máquinas se confundia com a névoa: os cabos se penduravam e outra vez se penduravam aos cachos de campânulas dos postes telegráficos que se seguiam automaticamente.

* *

       Da brecha dos bastões vermelhos corroídos na névoa as longas ruas abrem-se silenciosamente. O malvado vapor da névoa entristece entre os palácios velando a cúspide das torres, as longas ruas silenciosas desertas como após a pilhagem. Algumas garotas todas pequenas, todas escuras, artificiosamente envoltas no cachecol atravessam saltitando pelas ruas, rendendo-as mais vazias ainda. E no íncubo da névoa, naquele cemitério, elas me parecem repentinamente tão pequenos animais, todas iguais, saltitantes, todas negras, que vão incubar em um longo torpor um maléfico sonho seu.

*

      Numerosas as estudantes sob os pórticos. Vê-se súbito que estamos em um centro de cultura. Olham às vezes com a ingenuidade de Ofélia, três a três, falando à flor dos lábios. Formam sob os pórticos o cortejo pálido e interessante das belezas modernas, as minhas colegas, que vão à aula. Não têm o árduo sorriso Annunziano palpitante na garganta como as literatas, porém um sorriso mais raro e mais severo, absorvido e mastigado, de prognóstico reservado, as cientistas.

*

      (Café) Passou a Russa. A chaga de seus lábios ardia em sua tez pálida. Veio e passou trazendo a flor e a chaga de seus lábios. Com um passo elegante, demasiado simples e demasiado cônscio, passou. A neve continua a cair e se dissolve indiferente na lama da rua. A costureira e o advogado riem e jogam conversa fora. Os cocheiros atabafados põem a cabeça para fora da gola como bestas estultas. Tudo me é indiferente. Hoje ressalta todo o cinza monótono e sujo da cidade. Tudo funde como a neve neste pântano: e ao fundo sinto que é doce esse dissipar-se de tudo aquilo que nos fez sofrer. Tão mais doce que logo a neve estender-se-á inevitavelmente em um lençol branco e então poderemos descansar ainda em sonhos brancos.
      À minha frente há um espelho e o relógio bate: a luz me chega dos pórticos através das cortinas da vidraça. Pego a pena: Escrevo: o quê, não sei: tenho sangue nos dedos: Escrevo: “A amante na penumbra se agarra à tez do amante para escarnecer seu sonho..... etc.”.
      (Ainda pela rua) Tristeza aguda. Pára-me um antigo companheiro de escola, já naquele tempo muito inteligente e agora já em belas letras estrábico professor purulento: tenta-me, confessa-me com um sorriso sempre mui asqueroso. Conclui: poderias tentar mandar alguma coisa ao Amore Illustrato. (Rua). Eis inevitável sob os pórticos o enxame aeroplanante das senhoritas intelectuais, que ri e faz gluglu mostrando os dentes, à caça, parece, de todas os inimigos da ciência e da cultura, que vai despedaçar-se aos pés da cátedra. Já é hora! vou enlamear-me em meio à rua: a hora em que o ilustre asno sobe com sua carga de negra ciência catalográfica. . . . . . . .
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      Sobre a porta da casa viro-me e vejo o clássico, bigodudo, colossal emissário. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
      Ah! os direitos da velhice! Ah! quantos insidiosos!

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      (Noite) Em frente ao fogo o espelho. Na profundeza fantasmagórica do espelho os corpos nus alternam-se mudos: e os corpos lassos e vencidos nas chamas inextintas e mudas, e como fora do tempo os corpos brancos estultos inertes na fornalha opaca: branca, do meu espírito exausto silenciosa se desprendeu, Eva se desprendeu e me despertou.
      Passeio sob o íncubo dos pórticos. Uma gota de luz sangüínea, depois a sombra, depois uma gota de luz sangüínea, a doçura dos sepultados. Desapareço em um beco mas da sombra, sob um lampião, se embranquece uma sombra que tem os lábios manchados. Oh Satã, tu que as prostitutas noturnas pões ao fundo das encruzilhadas, oh tu que da sombra expões o infame cadáver de Ofélia, oh Satã tem piedade da minha longa miséria!


Dino Campana. Cantos Órficos. Trad. de Gleiton Lentz.
Desterro: Nephelibata, 2004, pp. 115-119.