nephelibata
Prosa...





Pulcritude
Camilo Prado


SINOPSE: Camilo Prado, insensível aos gritos de dor e prazer, retoma seus ímpetos! Nos três contos aqui reunidos, não há nenhum que não percorra os caminhos mais proibidos para uma pena atual; acostumado a chamar de pudicos os que só fazem metade do caminho, não tenho mais dúvida de que os fatos aqui narrados sorveram e me fizeram sorver um poderoso veneno: a silhueta lúbrica de suas personagens. Aqui se encontrará a jovem camponesa Adeline, apressada em gozar (e queimar!) sob o efeito d'O cinismo de Santo Antônio; se verá a perda da timidez de Adriane, em apego à sua virtude lasciva em Pulcritude; e depois, ao passo de uma noite, se conhecerá a mórbida história de Fernando, em Uma noite na travessa Retclif. Ao se percorrer então o caminho destes contos, nem mesmo um raio de ira divina que ali incida produzirá tamanho efeito como as cenas que se virão, porque apreciá-las sem pudor seria a glória de deus!    [Leia mais...] [Adquirir...]


*Camilo Prado nasceu no litoral da província de Santa Catarina. É tradutor (de Leopoldo Lugones,
Villiers de L’isle-Adam, Georges Rodenbach, entre outros) e editor da Edições Nephelibata.
Publicou também
Uma Velha Casa Submarina, Nefas e Os Cadernos de Arthur.



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PULCRITUDE
(fragmento)


      (...)
      O gosto do vinho na boca, e o espírito do vinho entrando corpo adentro, esquentando o peito, tingindo a alma com seu rubor, tudo isso, fez-me olhá-la nos olhos e me perguntar pelo que estaria se passando naquela mente de dez anos, naquela mente em formação, em desenvolvimento, em maturação... mas um simples gesto seu turvou por completo a minha mente... ela, num gesto rápido e decidido, grudou-me nos lábios e abraçou-me forte, tão forte que por alguns segundos mal pude respirar. E o mais incrível, era o que eu pensava naquele momento, o mais incrível é que eu me entregava como se fosse um garoto de programa nas garras de uma bela dona. Deixei-me ser beijado e babado e mordiscado por aquela boca infante, umedecida de vinho, repleta de um hálito suave, etéreo e agradavelmente gostoso...
      Eu estava perdido, eu estava completamente perdido...
      Ela levantou-se para ir buscar azeitonas na cozinha, e nesse meio tempo me recompus, ajeitei, tentei pelo menos, ajeitar meus pensamentos no interior da minha cabeça. Mas quando voltou ela veio direto sentar-se no meu colo, com um vidro de azeitonas na mão e um garfo com o qual espetou uma e trouxe até a minha boca. Esse gesto íntimo, de irmãos, de amigos, de amantes, e o peso de seu corpo no meu colo aliado ao gosto oleoso da azeitona na minha língua e os olhos dela olhando lá para além da tv, muito além da tv, mergulhada, sabe-se lá onde, sacudiu-me por dentro, enrijeceu todo o meu desejo e queimou-me toda a pele, de modo a esquentar-me tanto que senti o suor crescer-me em gotas na testa... e para refrescar-me, bebi num gole a taça de vinho. Ao encher novamente minha taça, ela estendeu-me a sua, vazia; lá se havia ido a meia taça. Que poderia eu fazer? Se não enchê-la?
      Ela começou a colocar as sementes de azeitona sobre a tampa do vidro que estava sobre a mesinha, entre nós e a tv. E a cada vez que estendia o braço para alcançar a tampa, seu corpo arqueava-se para frente e ela abria um pouco as pernas para se equilibrar, de modo a ficar a cavalo sobre minhas coxas, e deixava-me vê-la de costas, com a camiseta branca subindo e revelando a sua carne morena e a faixa branca de sua calcinha verde mar que apontava acima de sua bermuda verde oliva... cá por dentro de mim guerrilheiros em fardas negras atiravam tiros de metralha no código penal, um grande exército de revolucionários arrombava a casa branca, incendiava o pentágono e festejava com um grande banquete em frente ao palácio da alvorada, um cirurgião fazia cortes precisos em carnes vermelhas com gestos simplórios, inúmeras freiras desfilavam de nádegas de fora pela orla marítima de Copacabana, gigantescos cus cagavam na basílica de São Pedro, enquanto afogavam o papa em uma gigantesca máquina de lavar roupas suspensa no alto do Corcovado... era uma febre que me turbilhonava por dentro, uma grande avalanche de esperma que subia-me até a garganta, saía-me pelos olhos, por baixo de minhas unhas, molhava-me inteiro e me afogava, e afogava-me...
      Abracei-a com toda a vontade que naquele instante morava em mim e toquei-lhe a barriga por baixo da camiseta e dobrei-me sobre ela, disfarçando que ia pegar a tampa do vidro de cima da mesinha, que já esparramava caroços de azeitona sobre a toalhinha de linho branco, e falei, quase agonizante, “vou ao banheiro”.
      Foi a minha primeira fuga, tardia talvez, pois estava todo lambuzado e tremente como um vigário masturbado pelo espírito santo da santa virgem. Eu tinha naquele instante um desejo louco de me jogar na água, na água do mar, de um rio, de uma piscina, de uma banheira que fosse. Um desejo de me submergir... mas não tinha como. Eu estava no oitavo andar de um edifício no centro da cidade. Então entrei em baixo do chuveiro e deixei a água morna me cobrir, me batizar para lavar de mim os pecados de meu corpo vivo.
      Vivíssimo.
      Quando voltei à sala ela me olhou interrogativa, vendo-me com os cabelos molhados. “Tomei um banho, respondi, estava quente”. E por dentro de mim completava “mas não adiantou nada, continuo quente, muito quente, sinto fogo nas minhas mãos...” Sentei-me novamente no sofá, agora ao seu lado, e não sei porque força atrativa nossos corpos logo se encostaram e a mão dela tocou a minha e a minha a dela e de novo estava seu corpo pesando sobre o meu e agora meio de lado, e de lado a sua boca tocou a minha e a minha a dela e era talvez a terceira taça de vinho e já a minha língua entrava entre os seus lábios e a sua saliva chegava a mesclar-se com a minha e era, loucamente, eu sei, era muito bom, era um sentimento muito bom. Para mim e para ela, tenho certeza; talvez melhor ainda para ela. E foi assim que logo, ela, com toda a sua infantil mentalidade, ou seria com toda a sua maturidade? jogou uma azeitona dentro da minha camisa e depois foi procurá-la e a encontrou lá na minha barriga, que ela descobria delicadamente, abrindo botão por botão até deixar-me sem camisa e olhar demoradamente para meu peito e tocar carinhosa e desbravadoramente os pêlos do meu peito com a suavidade enlouquecedora de seus lábios... uma entidade medieval invadiu-me pelos pés dormentes, trementes, e atingiu o mais fundo do fundo da minha alma, tocando por lá os sinos da vida, os signos do sentido da vida, da vida eterna que só se sente em momentos mui raros de nossa mísera existência, momentos como este que sentia, momentos de devaneios, de suprema entrega ao prazer puro e simples do corpo, daquele corpo puro e humano. Oh, deuses! Quão feliz é o inebriamento da pureza. Quão garboso o momento da entrega e do esquecimento do mundo, da própria vida quando a vida fala mais alto por dentro de nós... oh, deuses!
      E lá ia a segunda taça pelos lábios dela bebidos, e lá ia entrando pela boca o espírito santo do santo vinho e a minha língua santa indo atrás, quase até a garganta, querendo entrar, lambendo por fora, procurando outras brechas, outros lábios...
      (...)

Camilo Prado. Pulcritude.
Desterro: Nephelibata, 2006, pp. 35-39.