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Os Cadernos de Arthur
Camilo Prado


SINOPSE: Cadernos escritos por um doente mental, encontrados num hospício. Com prólogo e epílogo de Camilo Prado.    [Leia mais...] [Adquirir...]


*Camilo Prado nasceu no litoral da província de Santa Catarina. É tradutor (de Leopoldo Lugones,
Villiers de L’isle-Adam, Georges Rodenbach, entre outros) e editor da Edições Nephelibata.
Publicou também
Uma Velha Casa Submarina, Nefas e Pulcritude.



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OS CADERNOS DE ARTHUR
(fragmento)


XII

      Caminhei por horas e horas seguidas pelo dormitório entre os leitos dos enfermos mentais, ouvi os gemidos de todos esses fodidos pela contingência de terem nascidos sob o signo da peste, desta mesma peste que me dilacera. Vi seus corpos, alguns nus, sobre lençóis brancos se contorcendo com suas reais ilusões, em suas trevas cerebrais, e senti pena de mim mesmo; por estar aqui junto de mim e nada poder fazer para me livrar deste mundo insano, no qual habitamos todos nós. Fui do início ao fim do longo corredor gerado pelas camas enfileiradas por ambos os lados, durante horas, por boa parte da noite, enquanto eles dormiam, gemiam ou simplesmente me observavam como mais um de si... fodido! Esta noite que se alonga para além de seu tempo necessário, esta noite em que revi toda a minha vida enquanto caminhava, esta noite deveria ser a última; por isso que ela se alonga tanto; esta noite eu deveria partir; não estava pronto, somente minha alma ousou partir; vi que ela permaneceu sobre meu leito por todo o tempo em que estive caminhando, estava em repouso, em profunda comunhão com a morte; esta noite ela partiu, a minha alma partiu. Sinto-me oco, vazio, completamente vazio. Quando o sol cuspir novamente sua luz, daqui a pouco, pelas vidraças iluminará apenas a carne desta estrutura inútil que já nada mais além de si possui. De hoje em diante vagarei por entre os outros como me convém: como um cadáver que se negou ao sepultamento. Todos sentirão o mau cheiro de minha presença, a necrófila postura de meu corpo enrijecido; não compreenderão nada; não irão perceber nada...  não importa...  diante do nada o que vale a compreensão, o entendimento? Eu estou diante do nada. Disso que não posso especificar, pois não é nada: nada de sensibilidade, nada de sentido, nada de compreensão; inexprimível; um silêncio.............................  Mas ainda assim permaneço aqui sentado sobre a cama, olhando o outro lado do dormitório, marcado por camas que se movem silenciosamente ante o meu olho austero e vigilante. Faço uma bola com o lençol e a aperto nas mãos, fazendo de conta que isso seja meu cérebro, aos poucos uma dor sobe-me pelos braços e atinge-me a cabeça, então largo a bola de pano e a dor cessa; olho para os lados, os loucos dormem, as horas passam arrastando os pés com unhas afiadas sobre meu ombro que começa a arder em chamas azuladas; a noite se alonga; eu queria estar em outro lugar, gostaria mesmo muito de estar em um outro lugar, mas não consigo imaginar um lugar onde gostaria de estar...................  parece que já o mundo não me suporta...
      (...)

Camilo Prado. Os Cadernos de Arthur.
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 25-27.