nephelibata
Prosa...





Nefas
Camilo Prado


SINOPSE: Livro que reúne contos mórbidos, com tendência ao fantástico e ao erótico. É a primeira publicação de Camilo Prado, onde já se encontram os traços de sua inclinação natural à literatura Simbolista mesclada com estética punk, que, com seu segundo livro - Uma Velha Casa Submarina - parece ser o seu caminho literário.     [Leia mais...] [Esgotado...]


*Camilo Prado nasceu no litoral da província de Santa Catarina. É tradutor (de Leopoldo Lugones,
Villiers de L’isle-Adam, Georges Rodenbach, entre outros) e editor da Edições Nephelibata.
Publicou também
Uma Velha Casa Submarina, Os Cadernos de Arthur e Pulcritude.


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PASSIONÁRIO
(fragmento)


      Aprendi sobre o martim-pescador porque ele me ensinou: um pássaro colorido, com as penas do peito verdes e vermelhas, com um colar de penas brancas em volta do pescoço, as penas das asas escuras, pretas, um tanto azuladas talvez, possui um bico enorme para seu tamanho; disse-me que mergulha na água para pescar, mas não é uma ave aquática, o que faz dele uma espécime curiosa, porque, disse-me ele, para um pássaro não deve ser nada fácil mergulhar n’água e sair voando com um peixe no bico; é só observar um biguá, por exemplo, tentando pegar vôo a partir da água, é bem lento; as gaivotas também não são lá muito ágeis para levantar vôo da água; mas o martim-pescador é um excelente mergulhador — fura a água quase em linha reta e depois sobe à superfície pronto para o ar, sem dar aquelas patadas na água como o fazem os biguás, que são, estes sim, pássaros aquáticos —, é como se de dentro d’água ele já tomasse o impulso que o lança para o ar, ou talvez é ainda o impulso que o lança para dentro d’água que o faz submergir, aproveitando assim a força do mergulho para poder lançar-se para fora d’água. E além de toda esta peculiar e invejável — invejável para mim que sequer sei nadar — arte de mergulhar e submergir para o ar, ele, o martim-pescador, é belo, belo da beleza das flores coloridas e intocáveis, semelhantes às orquídeas que habitam os altos ramos das centenárias figueiras das raras matas virgens; ele é como uma flor voante, bem menos gracioso que uma borboleta volteando pelo campo, mas bem mais volumoso, penoso e plumosamente vivo do que todas as cores de todas as borboletas em todos os jardins de todas as primaveras. E tem um cheiro forte de peixe mesmo sendo um pássaro muito limpo, pois mergulha muitas vezes durante um dia, e o seu olhar, disse-me ele, é o de um pássaro que tem negado a proximidade humana, diferente das gaivotas, pardais, sabiás e outros tantos outros...
      Lamento então por nunca ter visto um martim-pescador. Tudo que sei é tudo o que ele me disse, e uma fotografia mal feita, que vi numa revista, dum martim-pescador pequeno, pouco colorido e de costas. Disse-me que habita os manguezais e que qualquer dia desses poderíamos voltear os mangues para tentar encontrar um; mas acrescentou que é muito difícil vê-lo próximo, porque é um pássaro muito arisco. Concordei então que ele me levasse, para onde quisesse, para me mostrar este pássaro tão belo e tão escuso. Tão belo e tão escuso: estas palavras talvez servissem também para defini-lo; ele, por quem meu coração bate mais rápido, ele, para quem entreguei meu corpo como dantes nunca havia pensado poder entregar, sequer querer entregá-lo pensei. Ele a quem aguardo com angústia que retorne ao meu lado, que me toque, que me umedeça com sua boca quase lasciva de tanta beleza.
      Ontem, depois que me falou, outra vez, sobre o martim-pescador, sonhei com um grande pássaro verde e preto que me bicava e provocava um misto de prazer e ardor nas entranhas; e o pássaro era ele. E o meu medo, todo o meu medo, é que agora ele fale sobre martim-pescador para mais alguém; pedi-lhe para que não falasse para ninguém, estranhou-me, mas sorriu; talvez não tenha compreendido que suas palavras sobre pássaros, flores, árvores, poetas, histórias de tempos longínquos ouvidas em outras eras, registradas em livros, lidas há uma década não devem ser repetidas por ele para ninguém além de mim; porque sou eu somente que o ouço como é preciso, e como somente é possível ouvir, sendo sua amante, sua mulher, sua enamorada e companheira, sua única irmã, amiga e mãe, sua inteira e toda alma; eu que devo ser a razão, toda a razão, princípio, motivo e objetivo de seu viver; eu que sou seu amor.
      Mas ai de mim que o ouvi pelo telefone dizer-me que se atrasaria um pouco, talvez uma meia hora, e que se eu não quisesse esperá-lo poderia ir, depois nos encontraríamos em casa... e o meu amor soluçava já uma dor de nada físico, uma dor de ar, uma dor de palavras apenas, uma dor de dor, uma dor de dor que dói em lugar algum, mas que dói, e dói em mim que não sou lugar, nem coisa, nem sei...
      Cada homem, que caminhando com cabelos escuros, com gestos normais, com carne jovem, de um lado ou de outro, para onde movo minha cabeça e meus olhos, por milésimos de segundos me parece que é ele que se aproxima, porque é ele quem espero, e é ele que quero ver, mesmo sabendo que faltam ainda mais de vinte minutos para que ele saia de onde está e tome o ônibus que vem lento, rodando o asfalto, seguindo o rastro dos automóveis enfileirados ante semáforos de olhos vermelhos, lentos também eles, e que chegará aqui com seu peito de aço cansado e vomitará de suas portas um grupo de pessoas aflitas que apressadas procurarão outros ônibus ou ruas ou casas ou apartamentos de elevadores rangentes, escuros, de portas oxidadas que silenciam imóveis por quase dez segundos suficientes para nos dar um frio medo de enguiço na espinha de nosso ânimo; e ele sairá, caminhante também apressado pela plataforma, entre a multidão de passageiros que vai e que vem ou que fica, que entra e que sai dos auto-ônibus estacionados em longa fila a qual observo com ânsia, ânsia de saudades, ânsia de desejos, ânsia de ânsias, e não o vejo. E o relógio digital, plantado na calçada, exibe seus números claros, um a um, e eu os persigo, após cada grau de temperatura de lata exibida a intervalos e olho em meu próprio pulso os ponteiros que me mostram a mesma hora, a hora que não é a hora dele chegar, e ainda assim olho uma vez mais para o meio dos passantes ao longo da plataforma para tentar encontrá-lo enquanto meu peito arfa um suspiro que é estranho, que não é meu, que vem d’algum recôndito e ermo rincão da alma amante, repetindo-se à minha frente, por milésimos de segundos, a impressão da confusão de vê-lo na figura de homens que em nada se lhe assemelham...
      (...)

Camilo Prado. Nefas.
Desterro: Nephelibata, 2004, pp. 39-42.