Pensamento...


Celso R. Braida
SINOPSE: Em Scismas, Celso R. Braida exagera na falta de “bom gosto” e na quebra das regras do “bem pensar” profissional. Aforismos repletos de insinuações e provocações. O que é insinuado: que falta radicalidade no pensamento atual. O que é provocado: a rebeldia e a ousadia dos lúcidos. Trata-se de uma tentativa de ruptura das fixações configuradoras da nossa atual forma de vida. [Leia mais...] [Adquirir...]
é professor de filosofia, tradutor, nômade, além de pensador amador.
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(excerto)
§1.
O humano padrão constitui hoje a grande ameaça ao espírito e à vida na terra. O humano padrão não tem sexo, cor, raça, credo ou ideologia; ele é um instrumento multiuso e reprogramável. O humano padrão produz e consome tudo o que está à venda no mercado; ele mesmo está à venda e também é para ser consumido no mercado. Embora ele seja o genérico em si, o humano padrão, porém, tem um limite: ele apenas subsiste quando implantado no corpo vivo de um bicho humano. O humano padrão não sabe nada, mas ele tem a capacidade de aprender elevada ao extremo. Nisso ele é o ideal socrático realizado. O humano padrão não tem gosto e opinião próprias, ele segue a moda e os formadores de opinião. Nisso ele é a realização do ideal kantiano. Todavia, sem um procedimento de educação massivo e continuado, o humano padrão não é alcançado e, então, surgem os divididos, os idiossincráticos, os convictos, os errantes, os desatinados, para cima e para baixo na escala da cultura e da vida, o que revela que o humano padrão não é o padrão humano. Isto, entretanto, não é de todo bom, pois, para os muitos demais, o fato de o humano padrão não ser o padrão é dor e não luz.
§2.
Viver sem uma metafísica que torne significativos os acontecimentos e pensamentos, eis um desafio ainda insuperado. Muitos foram os que tentaram e, talvez, assim viveram por alguns momentos. Os cínicos, provavelmente. Nietzsche, com certeza. Todavia, não quero falar do que passou, mas antes apontar e indicar um caminho viável para hoje e para o futuro. A primeira providência é cortar qualquer vínculo de crença com todo e qualquer elemento supra-humano, sagrado, divinal ou demoníaco. Depois, elidir a crença em elementos naturais como doadores de sentido para a própria ação e existência. Feito isto, restará apenas elementos de extração humana ou histórica. A tua ação será guiada e justificada apenas por instâncias humanas, tais como regras de convivência, leis comunitárias, acordos particulares e projetos individuais e coletivos, enfim, hábitos e costumes. Viver assim ou não, fazer isso ou aquilo, dizer e prometer, a partir de então estarão justificados e adquirirão sentido apenas com referência a tais instâncias. Suportarás semelhante modo de tornar significativa e orientada a tua vida? Não é esse um caminho para dar um sentido, um ser e um fim, a tua existência? Não é este o único modo des-iludido? Viver sem esperança na salvação divina e sem nostalgia da existência natural: viver apenas como humano!
