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O Monte das Almas
Gustavo Adolfo Bécquer


SINOPSE: Publicadas originalmente em periódicos, entre os anos de 1861 e 1863, as Lendas aqui reunidas revelam, através de um estilo suscetivelmente vago e apurado, um lado misterioso do romantismo literário espanhol. O registro arqueológico e artístico da intrigante Idade Média, com seus castelos ruinosos e assombrados, seus templos góticos e monastérios seculares, suas ruelas lúgubres e enevoadas, em confluência direta com o sobrenatural e com a magia de diversas lendas populares do sul das terras da antiga Ibéria, outrora habitadas por mouros e cristãos, evidenciam a ambiência motriz das narrativas do autor e desvelam um poder de evocação por meio de descrições e sensações não menos convergentes em intensidade. E eis aqui quatro narrativas exemplares destas lendas, entre elas a fantástica O Monte das Almas. Gustavo Adolfo Bécquer (1836-1870) nasceu em Sevilha. Por volta de 1854, partiu para Madri, onde passou a dedicar-se quase que exclusivamente à literatura, escrevendo ensaios e novelas. Viveu anos na miséria até tornar-se redator do El Contemporaneo. Em 1858, achando-se doente, afastou-se para a cidade de Toledo, onde publicou sua primeira seleção poética, Rimas. Faleceu em dezembro de 1870, aos 34 anos.   [Leia mais...] [Adquirir...]



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A VOZ DO SILÊNCIO
(conto integral)


      Em uma das visitas que, como remanso à luta diária, faço à vetusta e silenciosa Toledo, ocorreram estes pequenos fatos que, engrandecidos por minha fantasia, translado às esbranquiçadas páginas.
      Vagava uma tarde pelas estreitas ruas da imperial cidade com minha pasta de desenho debaixo do braço, quando senti que uma voz, como um imenso suspiro, pronunciava, ao meu lado, vagas e confusas palavras: virei-me apressadamente e qual não foi o meu assombro ao encontrar-me completamente sozinho na estreita ruela. E, no entanto, indubitavelmente uma voz, uma voz estranha, mescla de lamento, voz de mulher sem dúvida, havia soado a poucos passos de onde eu me encontrava. Cansado de procurar inutilmente a boca que às minhas costas havia emitido sua confusa queixa, e tendo já soado a hora do Ângelus no relógio de um convento próximo, dirigi-me à hospedaria que me servia de refúgio nas intermináveis horas da noite.
      Ao ficar sozinho em minha habitação, e à luz da débil e vacilante bugia, tracei em meu caderno uma silhueta de mulher.
      Dois dias depois, e praticamente quando já havia esquecido minha aventura passada, a casualidade me levou novamente à tortuosa encruzilhada, teatro dela. O dia começava a morrer; o sol tingia o horizonte de manchas vermelhas, arroxeadas; caía grave no silêncio a voz brônzea das horas. Meu passo era lento, uma vaga melancolia punha um gesto de dúvida em meu semblante.
      E outra vez a voz, a mesma voz do outro dia, voltou a turvar o silêncio e minha tranqüilidade. Desta vez decidi não descansar até encontrar a chave do enigma, e quando já desconfiava de minhas buscas, descobri em uma velha casa, de antiqüíssima arquitetura, uma pequena janela fechada por uma grade de caprichoso e artístico balaustrado. Daquela janela saía, indubitavelmente, a harmoniosa e silente voz daquela mulher.
      Era completamente noite, a voz-suspiro tinha se calado e decidi voltar à hospedaria, e em meu quarto de caiadas paredes, tendido no duro leito, minha fantasia havia criado uma novela que, desgraçadamente..., nunca será realidade.
      Ao dia seguinte, um velho judeu que tem seu posto de mercadoria barata defronte à velha casa em que a misteriosa voz soou, contou-me que a dita casa está desabitada há muito tempo. Nela vivia uma belíssima mulher acompanhada de seu marido, um avaro mercador de mais idade que ela. Um dia, o mercador saiu da casa fechando a porta com chave, e nada mais se soube dele nem de sua bela mulher. A lenda conta que, desde então, todas as noites um fantasma branco com formas de mulher vaga pelo ruinoso casarão, e que vozes confusas mescladas de maldição e lamento se escutam.
      Logo, a mesma lenda acredita ver no branco fantasma a bela mulher do avaro mercador.
      Voz de mulher que, como música celeste, como suspiro de uma alma enamorada, veio a mim, trazida pela carícia do ar repleto de aromas primaveris. Que mistério reside em tuas confusas palavras, em tuas débeis queixas, em tuas harmoniosas e estranhas canções?


Gustavo Adolfo Bécquer. O Monte das Almas. Trad. de Gleiton Lentz
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 35-37.

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