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Prosa...





Vidas Sombrias
Pío Baroja


SINOPSE: Nascido em San Sebastían, País Basco, e passado a maior parte de sua vida em Madri, Pío Baroja (1872-1956) é considerado o maior romancista espanhol do último século, tendo escrito mais de cem livros. Sua obra, repleta de incidentes e personagens mui bem traçados, se destaca pelas descrições impressionistas e apresenta como protagonistas uma miríade de seres inadaptados e conseqüentemente à margem da sociedade. Sua primeira obra, Vidas Sombrias (1900), conforma uma série de contos breves, uma série de episódios dispersos, unidos, pela constante presença, enfim, destas vidas que por sombras são envoltas e pela tinta de uma pena enegrecidas.   [Leia mais...] [Adquirir...]


Do tradutor:
Gleiton Lentz é tradutor e nephelibata. Mestrando em Estudos da Tradução pela
UFSC, dedica-se ao estudo e tradução da poesia simbolista italiana e hispano-americana.


Outras traduções pela Nephelibata:
O Monte das Almas, de Gustavo A. Bécquer
O Cirurgião do Mar, de Gabriele D'Annunzio



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A VIDA DOS ÁTOMOS
(conto integral)


      Uma noite de inverno estava só, em meu quarto, lendo. Não se ouvia na casa nem um ruído nem um murmúrio; somente dois relógios, o primeiro em meu quarto, o outro do corredor, rompiam com seu tic-tac o silêncio da noite.
      O mais pequeno, o de meu quarto, introduzia entre o tic-tac habitual de um relógio respeitável, outros dois golpes intermédios e parecia dizer: “Vamos, já. Vamos, já.”
      O grande, o do corredor, desprezando estas fantasias impróprias de um relógio sério que se estima, murmurou de modo quase imperceptível: “Bem vai... Bem vai...”
      Eu os ouvia correr e perseguirem-se com seus ruídos, e desdenhava profundamente, no fundo de minha alma, o estéril trabalho que empreendiam em alcançar um ao outro.
      Havia lido em uma obra moderna de Química o desenvolvimento da teoria atômica, e estava preocupado, até sentia indignação.
      “Os átomos não me convencem — murmurei —. Acredito que tenha direito de dizer que os átomos não me convencem. Somos positivistas ou não? Pois, então... Quem viu o átomo? Quem pesou o átomo? Por que ninguém se atreve a dizer que é indivisível? Por quê? Acima de tudo, o que mais me incomoda, isto o digo em segredo, é que digam que o átomo é insecável.”
      Meu gato negro, acredito que eu tenha também direito a dizer que tenho um gato negro, estava em cima da mesa, disposto sobre a Psicologia celular, de Haeckel, e olhava-me gesticular, com seus olhos amarelos, com uma indiferença mortificante. Acreditei descobrir em sua expressão certo assomo de ironia, que me parecia imprópria de um subordinado e de um ser que, ao fim e ao cabo, vive às minhas custas.
      Levantei-me da mesa, e sentei-me em um sofá junto à chaminé, acendi o cachimbo e pus-me a olhar as chamas. Meu cachorro grunhiu porque isso o incomodava, apartando-o do fogo.
      Não podia afastar meu pensamento da teoria atômica nem do átomo. O insecável! Há algo mais imbecil do que o insecável?
      — O átomo é uma antigualha — disse —, uma hipótese que deve ser destruída imediatamente. Não existe mais que a matéria única. Quando alguém sair dizendo que o átomo tem um sentido científico e filosófico, negá-lo-á.
      Meu cachorro, meio adormecido, olhava-me de vez em quando de esguelha com certo respeito.
      — Sim — lhe disse —. É preciso deixar essa velharia do átomo: temos que nos remontar mais além, ao sub-átomo, se me permite a expressão.
      Meu cachorro fechou os olhos, como que aceitando a frase.
      — Já não estamos mais naqueles tempos — prossegui dizendo — nos quais chamar o ouro de Au e a prata de Ag e o enxofre de S, significava algo. Já não estamos nesses tempos. Não. Não estamos nesses tempos.
      Como ninguém não me contradizia, para entreter-me pus-me a contemplar o fogo, que fazia chispar as lenhas sustidas pelos morilhos, que representavam duas negras egípcias, e a olhar a brasa de meu cachimbo. Olhava-a quando uma chispa fugidia levantou-se dali e ficou imóvel no ar.
      Eu, escandalizado ante aquela subtração à lei da gravidade, peguei as tenazes e tratei de jogar a chispa ao chão, mas ela, sem fazer caso de leis, permaneceu em seu lugar e começou a dar voltas, formando círculos no ar, até que... paf!, rebentou como um foguete em mil luzinhas brancas, vermelhas, verdes, arroxeadas, escarlates, amarelas, de todas as cores, apagadas e com brilho.
      Aquilo me pareceu bastante estranho. Lentamente naquelas pequenas chispas foram se desenhando formas vagas, e, ao se concretizarem, apareceram figuras de homens, mulheres, moscas, cachorros, cínifes e lagartos e todos começaram a revoltear e a dançar vertiginosamente ao redor de minha cabeça.
      “Au! Au!”, ladrava um cãozinho de cor de ouro em meus ouvidos.
      “Agá! Agá!”, espirrava um senhor idiota, inodoro, incolor e insípido.
      “Br! Br!”, zumbia o cínife que exalava um cheiro acre e forte.
      — Que gentinha é esta? — murmurei, indignado —. Quem sois?
      Então, um daqueles bichos, que se assemelhava a um vaga-lume pela classe de luz que irradiava, e que silvava como uma máquina a vapor fazendo “Ph! Ph!”, parou descaradamente diante de mim e me disse:
      Somos átomos.
      Mentira! — gritei —. Os átomos não existem.
      — Ag..., ag..., ag...! — exclamou uma senhora vestida de branco, com um sorriso argentino.
      — De modo que não existimos, imbecil? — replicou o átomo fosforescente, com desdém —. Vós homens sim que não existis! Não sois mais que nossa casa, mas servis para nossa alimentação, para nossa vida; nada mais.
      — Vós!... Vós não tendes vida — lhe disse —. Por que haveis de tê-la!
      — Oh Humanidade, Humanidade! Sempre serás idiota — gritou o átomo fosforescente —. Vês que nos movemos, que nos enamoramos tal como os homens; és testemunha de nossa sensibilidade e de nossa vontade, e negas que tenhamos vida.
      — Vontade? — saltei —. Não compreendes, mequetrefe, que sobre todas suas ações pesa um determinismo inexorável; que eu posso fazer com que te cases, e que te divorcies quando me dê vontade?
      — Oh! Oh! — disse um átomo de oxigênio —. Isso já é muito.
      — S... S..., — murmurou o átomo de enxofre, com um dedo sobre os lábios, e acrescentou —: deixem o átomo inteligente falar.
      — Isso o que dizes do divórcio — replicou o vaga-lume —, nada prova senão que estamos mais adiantados que vós. Qual átomo que tenha dois átomos de sentido comum suporta uma mulher para toda a vida?
      — Sim, isso está bem dito — lhe repliquei —, se vos divorciásseis por gosto; mas vós, desditados, não tendes vontade como os homens.
      — Bom! — argüiu ele —. Vós vos acreditais livres porque não podeis compreender o mecanismo do trabalho atômico em vosso cérebro; mas se nossos atos são fatais, os vossos também o são do mesmo modo; somos fatores de vós, e de fatalismos atômicos não se podem obter livres arbítrios humanos.
      — E a alma? — disse eu, recordando que em Psicologia, Lógica e Ética havia aprendido uma porção de artifícios para demonstrar sua existência.
      — A alma! Pchs! Este eu no cérebro de um homem, e verás inteligência; que falte este prior, e verás estupidez.
      — Pois quem és, que te dás tanto tom?
      — Sou um átomo de fósforo. Veja.
      E o átomo se retorceu, pôs os pés na cabeça, converteu-se em um anel luminoso e brilhante e subiu pelo ar; logo baixou, e disse:
      — Vês? Isso é uma idéia.
      Eu estava atônito.
      O átomo fosforescente, aproveitando-se de minha estupefação, seguiu fazendo fantasias um tanto grosseiras.
      Pôs-se formando uma aspa, e disse:
      — Aí tens uma idéia geométrica.
      Em seguida se retorceu até traçar um ângulo, e murmurou:
      — Isto é uma idéia de ódio.
      Depois se escarranchou, abriu os braços, e disse:
      — Isto é um pensamento de amor.
      Eu, como disse, estava atônito; os átomos dançavam ao meu redor, chiando, gritando todos em coro:
      — Somos a matéria única, o indivisível, o insecável!
      Ao dar-me conta dessas palavras, estremeci em meu assento, e exclamei:
      — Falso! Falso! Sois formados por partículas.
      Então, homens, mulheres, cachorros, cínifes e lagartos estalaram; uma substância tênue, de cor cinza, flutuou no espaço... Ri com um sorriso alegre e triunfante... Via a matéria única, meu X primitivo, a matéria eterna e eternamente divisível...
      Mas, diabos. O meu cachimbo havia se apagado.


Pío Baroja. Vidas Sombrias. Trad. de Gleiton Lentz.
Desterro: Nephelibata, 2004, pp. 49-54.