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A Alma da Máquina
Baldomero Lillo


SINOPSE: Baldomero Lillo Figueroa (1867-1923) nasceu em Lota, província de Concepción, Chile. Por problemas de saúde e falta de interesse pelos estudos regulares cursou apenas até o segundo ano de Humanidades. Por sua formação precária, afirma-se que era autodidata, sobretudo em seu aprendizado de Literatura, em que encontrou a obra de Émile Zola. Isso, aliado ao seu conhecimento das minas de carvão, bem como da vida social dos mineiros chilenos, com o qual ele teve contato, possibilitou-lhe fazer um amplo panorama dos interiores das minas, bem como dos mineiros: seus estados de espírito, suas ânsias e desesperos, suas vidas condenadas, desde a infância, ao sofrimento e à humilhação. Baldomero, no entanto, não é mero discípulo de Zola. Sua escrita é própria de um homem sensível ao seu ambiente e fiel à escrita que conta algo, indiferente às formas fixas. É um espírito que, mesmo respirando o ar do amplo pacífico sul, olhou para os subterrâneos existentes às suas margens e mergulhou sua pena no sangue e na alma humana, aqui pela primeira vez traduzida ao leitor brasileiro. Suas principais obras são Sub terra (1904) e Sub sole (1907).   [Leia mais...] [Adquirir...]



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INAMÍVEL
(excerto)


      Ruperto Tapia, aliás, o Ratazana, terceiro guarda da polícia comunal, de serviço pelo turno da manhã no povoado, ia e vinha ao centro do cruzamento com o corpo erguido e o ar grave e solene do funcionário que está persuadido da importância do cargo que desempenha.
      De trinta e cinco anos, estatura regular, forte, robusto, o guarda Tapia goza de grande prestígio entre os colegas. Consideram-no um poço de ciência, pois tem na ponta da língua todas as regras e regulamentos policiais, e até mesmo os artigos pertinentes ao Código Penal lhe são familiares. Contribui para fortalecer essa fama de sabedoria, a voz grave e enfática, a entonação dogmática e sentenciosa dos discursos, e a estudada circunspecção e seriedade de todos os seus atos. Porém, de todas as suas qualidades, a mais original e característica é a assombrosa desenvoltura com que inventa um termo quando o verdadeiro não acorre, com a devida conveniência, aos seus lábios. E tão eufônicos e pitorescos lhe resultam esses vocábulos, com os quais enriquece o idioma, que não é fácil apagá-los da memória quando se os ouviu uma vez ao menos.
      Enquanto caminha fazendo ressoar os sapatos cravejados sobre as pedras da calçada, no rosto moreno e bronzeado do Ratazana percebe-se uma sombra de descontentamento. Foi-lhe incumbido um setor onde o trânsito de veículos e pedestres é quase nulo. As ruas, repletas de árvores, ao pé das quais desliza a água dos canais, estavam vazias e será muito difícil surpreender uma infração, por menor que seja. Isso o aborrece, pois está convicto que se se destacar diante dos chefes como um funcionário zeloso no cumprimento de seus deveres, irá conseguir aquelas ginetas de cabo que há tanto tempo ambiciona.
      De repente, detrás de si, gritos agudos e risos que estalam ressoantes fazem-no virar-se rapidamente. Não mais que meia quadra dali, uma moça de 16 a 17 anos corre pela calçada perseguida de perto por um marmanjo que traz na mão direita algo semelhante a um chicotinho. O Ratazana reconhece a dupla. Ela trabalha como empregada na casa da esquina, e ele é Martín, o carroceiro, que retorna das cercanias do povoado, onde foi pela manhã levar os cavalos para descansar no potreiro. A moça, aos gritos e gargalhadas, chega até a casa onde mora e adentra-a correndo. O perseguidor pára um momento diante da porta e logo se dirige até o guarda, e diz-lhe sorrindo:
      — Como gritava a espertinha, e isso que não consegui passar esse bichinho em seu cangote!
      E levantando a mão para o alto, mostrou uma pequena cobra que segurava pela cauda, e acrescentou:
      — Está morta, eu a peguei no pé do morro quando fui deixar os cavalos. Se quiseres, deixo-te ela para que te divirtas assustando outras moças que passarem por aqui.
      Mas o Ratazana, em vez de pegar o réptil que seu interlocutor lhe estendia, deixou cair sua manzorra sobre o ombro do carroceiro e o intimou.
      — Irás me acompanhar ao quartel.
      — Eu, ao quartel! Por quê?
Levas-me preso, então? — proferiu o alegre galhofeiro de um minuto atrás, roxo de surpresa e indignação.
      E o apreensor, com o tom e ar solenes que adotava nas situações mais sérias, disse-lhe, apontando o cadáver da cobra que ele segurava na mão direita:
      — Levo-te porque andas com animais — nesse momento parou, hesitou um instante, e, enfático, prosseguiu — porque andas com animais inamíveis em via pública.
      E apesar dos protestos e súplicas do rapaz, que tinha se livrado do corpo de delito, atirando-o na água do canal, o representante da autoridade se manteve inflexível em sua deliberação.
      Na chegada ao quartel, o oficial de guarda, que cochilava à mesa, recebeu-os de muito mau humor. Na noite anterior, ele havia ido a uma janta oferecida por um amigo para celebrar o batismo de uma criança, e a falta de sono e o efeito que ainda persistia do álcool ingerido durante o decorrer da festa mantinham-lhe o cérebro entorpecido e todas as idéias embrulhadas. Sua cabeça, segundo o conceito vulgar, estava como um ninho de vespas.
      Depois de bocejar e revirar-se na cadeira, endireitou o torso e lançando um furioso olhar aos inoportunos, pegou a pena e começou a redigir a advertência no livro de ocorrências. Após registrar os dados referentes ao estado, idade e profissão do preso, deteve-se e interrogou:
      — Por que o prendeu, guarda?
      E o interpelado, com a precisão e prontidão daquele que tem certeza do que diz, respondeu:
      — Por andar com animais inamíveis em via pública, meu inspetor.
      Inclinou-se sobre o livro, mas voltou a levantar a pena para perguntar a Tapia o que aquela palavra, que ele ouvia pela primeira vez, significava, quando uma reflexão o deteve: se o vocábulo estivesse bem empregado, sua ignorância lhe diminuiria a autoridade perante um subalterno, a quem, certa vez, já havia corrigido um erro de linguagem, tendo mais tarde a desagradável surpresa de comprovar que o equivocado era ele mesmo. Não, era preciso evitar a todo custo a repetição de uma situação vergonhosa, pois o princípio básico da disciplina desmoronaria se o inferior tivesse razão contra o superior. Ademais, como se tratava de um carroceiro, aquela palavra se referia, sem dúvida, aos cavalos do veículo que o condutor provavelmente fazia trabalhar em más condições, quem sabe se doentes ou machucados. Essa interpretação do assunto pareceu-lhe satisfatória e, já tranqüilizado, dirigiu-se ao réu:
      — Isso é verdade? O que tu dizes?
      — Sim, senhor; mas eu não sabia que isso era proibido.
      Essa resposta, que parecia confirmar a idéia de que a palavra estava bem empregada, dirimiu a dúvida do oficial que, acabando de escrever, ordenou em seguida ao guarda:
      — Passe-o ao calabouço.
      (...)


Baldomero Lillo. A Alma da Máquina. Trad. de Gleiton Lentz
Desterro: Nephelibata, 2008, pp. 11-15.

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