Nimbus...


Gabriele D'Annunzio
SINOPSE: Gabriele D’Annunzio compôs, nas últimas décadas do ensombrado século XIX, grande parte das novelas que em 1902 culminariam na aparição da coletânea Le novelle della Pescara. De inspiração muito próxima ao naturalismo francês e dos veristas italianos, D’Annunzio desenvolveu uma técnica descritiva ao mesmo tempo objetiva e cruel: em suas novelas não existe outra inquietação do que a própria inquietação física, tudo é uma intensa vibração de carne e de sangue, e as breves narrativas que se seguem, O cirurgião do mar e A vigília fúnebre, dão-nos uma mostra disso, além de apresentar a primeira tradução destas narrativas, no Brasil, do escritor. Gabriele D’Annunzio nasceu em 1863, em Pescara, na região italiana de Abruzzo. Fixou-se, duas décadas depois, em Roma, onde começou a tecer seus primeiros escritos. Finda a 1ª Grande Guerra, na qual fora combatente pelo exército italiano, retirou-se à sua residência no Lago de Garda, aonde faleceu em 1938. [Leia mais...] [Adquirir...]
(fragmento)
O bergantim Trinità, carregado de trigo, zarpou em direção à Dalmácia, ao entardecer. Navegou tranqüilamente ao longo do rio, entre as balandras de Ortona ancoradas em fila, enquanto que, à margem do afluente, fogos eram acesos e marinheiros que haviam regressado cantavam. Em seguida, passando lentamente pela embocadura da foz, a embarcação desaguou no mar.
O tempo estava bom. No céu de outubro, quase à flor da água, a lua cheia pendia como uma doce lâmpada rosada. As montanhas e as colinas, atrás, tinham formas de mulheres deitadas. Ao alto, passavam os gansos selvagens que, em silêncio, se dispersavam.
Os seis homens e o grumete, de comum acordo, manobram primeiramente a favor do vento. Depois, como as velas se encheram no ar, inteiramente tingidas de vermelho e marcadas com grotescas figuras, os seis homens se sentaram e começaram a fumar tranqüilamente.
O grumete se pôs a cantarolar uma canção da pátria, a cavalo sobre a proa. Disse o Talamonte mais velho, cuspindo um longo jato de saliva na água e colocando novamente na boca o glorioso cachimbo:
— O tempo não vai se manter assim.
À profecia, todos olharam em direção ao alto mar; e não falaram. Eram marinheiros fortes e insensíveis às vicissitudes do mar. Tinham, em outras vezes, navegado às ilhas dálmatas, a Zara, Trieste, Spalato; conheciam o caminho. Alguns ainda recordavam docemente o vinho de Dignano, que tem o aroma das rosas, e os frutos das ilhas.
Ferrante la Selvi, comandava o bergantim. Cirù, Massacese, Gialluca e os dois irmãos Talamonte formavam a tripulação, todos nativos de Pescara. Nazareno era o grumete.
Sendo plenilúnio, tardaram sobre o convés. O mar estava repleto de balandras que pescavam. De vez em quando um par delas passava ao lado do bergantim; e os marinheiros trocavam vozes, familiarmente. A pesca parecia ser boa. Quando os barcos se afastaram e as águas ficaram desertas, Ferrante e os Talamonte desceram à parte coberta para descansar. Massacese e Gialluca, após terminarem de fumar, seguiram o exemplo. Cirù permaneceu de guarda.
Antes de baixar, Gialluca, mostrando ao companheiro uma parte do pescoço, disse:
— Olha o que tenho aqui.
Massacese olhou e disse:
— Não é nada demais. Não te preocupes.
Tinha um vermelhão igual àquele produzido pela picada de um inseto, e no meio dele uma pequena tumescência.
Gialluca acrescentou:
— Me dói.
Na noite o vento mudou; e o mar começou a engrossar. O bergantim se pôs a dançar sobre as ondas, arrastado a levante, perdendo direção. Gialluca, na manobra, lançava de quando em quando um pequeno grito, já que a cada movimento brusco da cabeça sentia dor.
Ferrante la Selvi lhe perguntou:
— O que tens?
Gialluca, à luz do alvorecer, mostrou o seu mal. Sobre a pele, o vermelhão tinha crescido, e um pequeno tumor afunilado aparecia ao meio.
Ferrante, após ter observado, disse também:
— Não é nada demais. Não te preocupes.
Gialluca pegou um lenço e enfaixou o pescoço. Depois se pôs a fumar.
O bergantim, sacudido por vagalhões e arrastado por ventos contrários, ainda seguia em direção ao levante. O rumor do mar encobria as vozes. Algumas ondas se quebravam contra o convés, a intervalos, com um som surdo.
Ao anoitecer, a borrasca se acalmou; e a lua emergiu como uma cúpula de fogo. E, uma vez diminuído o vento, o bergantim ficou praticamente imóvel na bonança; as velas se afrouxaram. De tanto em tanto sobrevinha um sopro passageiro.
Gialluca se lamentava da dor. No ócio, os companheiros começaram a ocupar-se de sua moléstia. Cada um sugeria um remédio diferente. Cirù, que era o mais velho, se colocou à frente e sugeriu um emplastro de mel e de farinha. Ele possuía certa cognição médica, uma vez que sua mulher praticava medicina com magia e curava os males com os fármacos e com as cabalas. Mas a farinha e o mel faltavam. A bolacha não podia ser eficaz.
Então Cirù pegou uma cebola e um punhado de grãos: moeu o grão, cortou a cebola, e compôs o emplastro. Ao contato daquela matéria, Gialluca sentiu crescer a dor. Após uma hora, arrancou do pescoço a atadura e arremessou tudo ao mar, invadido por uma feroz impaciência. Para vencer o incômodo, se pôs ao timão e susteve a barra ao longo do tempo. Havia começado a ventar, e as velas palpitavam maravilhosamente. Na clara noite uma pequena ilha, provavelmente Pelagosa, aparecia ao longe como uma nuvem pousada sobre a água.
Pela manhã, Cirù, que já tinha começado a tratar da moléstia, quis observar o tumor. O inchaço tinha se dilatado ocupando boa parte do pescoço e assumido uma nova forma e uma cor mais escura que, à superfície, tornava-se violeta.
— O que é isso? — ele exclamou, perplexo, com um som de voz que fez estremecer o enfermo. E chamou Ferrante, os dois Talamonte, os demais.
As opiniões foram diversas. Ferrante imaginou um mal terrível pelo qual Gialluca poderia se sufocar. Gialluca, com os olhos extraordinariamente abertos e um pouco pálido, escutava os prognósticos. No momento em que o céu estava coberto de vapores, em que o mar transparecia escuro, em que revoadas de gaivotas se precipitavam em direção à costa bradando, uma espécie de terror baixou em seu ânimo.
Ao final, o Talamonte mais novo, sentenciou:
— É uma pústula maligna...
(...)
Desterro: Nephelibata, 2005, pp. 11-16.
