Plaquetas...

Adelino Magalhães
*Adelino Magalhães nasceu no Rio de Janeiro, em 1887. Além de ser precursor no Brasil da escrita
automática e do estilo cinematográfico, sua verve se destaca pelo uso de uma linguagem
ao mesmo tempo áspera e poética, chula e bíblica.
(excerto)
– Dona Mariquita aí está a cerveja!
– Não, não é para a Mariquita, não, seu Costa! É para mim!
Dois bracinhos, de uma magreza muito nacional, deram um bote decisivo sobre a garrafa que aeroplanava sobre a mesa, defecando espuma pelo gargalo...
– Aí, Dona Pequenina, não relaxa! A Brama ainda acaba lhe dando um prêmio!
– Viva! Hip! Hip! hurra! Viva o Teles!
– Neste momento solene eu faltaria...
– Fora! Fora! Não pode!... Não pode!... Olha, que se continuar...
O orador, muito pálido de dispepsia e de desconsideração, esbugalhava os olhos em torno da revolta acervejada, sem saber que rumo tomar...
– Entope esse cidadão com a farofa do peru...
– Mas, senhores, isso é uma casa séria!
– Abre-lhe uma garrafa de gasosa no...
– Dá-lhe um banho de molho inglês...
Espírito prático, educado em moldes americanos, o Gustavo ia fazer seguir a ação à palavra, estendendo para isso a mão a um vidro perfilado, junto à fruteira...
– Senhores, atenção – pigarreou o Juvêncio Sales.
– Senhores, o estimado e operoso segundo-escriturário da...
Paf!
Um pedaço de pudim-de-creme abraçara, fremente, a cara do segundo orador pedindo: Não, não, meu benzinho, não fala mais, não. Meu benzinho!...
No meio do tumulto dos gestos, das gargalhadas, e das caretas em raid sobre o tumulto da mesa, destroçada na grande desordem dos pratos e das garrafas, e das comesainas e dos copos entornados, a indignação do Juvêncio riscou o espaço, numa hipérbole à Castro Alves, trovejando:
– Quem foi aquele, cuja audácia cega, louca, inqualificável...
[...]
